O ex-banqueiro Daniel Vorcaro terá de apresentar provas inéditas e indicar a possibilidade de recuperação de valores obtidos de forma fraudulenta para conseguir que sua delação premiada seja aceita. Reforçar a narrativa já encontrada pelos investigadores no material colhido nas operações de busca e apreensão não será suficiente para ele receber benefícios à frente no processo, como não ficar preso.
Apesar de a colaboração ter sido um desejo de investigadores desde o início do caso, a homologação do acordo no STF (Supremo Tribunal Federal) não é certa e terá de cumprir pré-requisitos elevados, segundo a Folha apurou com autoridades envolvidas nas tratativas.
A negociação do acordo é feita entre a defesa de Vorcaro, a PGR (Procuradoria-Geral da República) e a Polícia Federal em conjunto, o que deverá ser um primeiro obstáculo a ser superado pelo ex-banqueiro. Isso porque ele terá de atingir as expectativas de integrantes dos dois órgãos, que já indicaram que não avançarão com a colaboração se não houver consenso entre os investigadores.
A expectativa é que a negociação do acordo de colaboração avance ao menos pelos próximos três meses. Depois, caberá ao relator do caso no STF (Supremo Tribunal Federal), André Mendonça, decidir se homologa ou não a colaboração.
Segundo pessoas envolvidas na negociação com Vorcaro, atalhos como selecionar trechos para aprofundar o entendimento ou apenas entregar informações já presentes no material apreendido do caso Master pode resultar na não homologação. A PF apreendeu 111 celulares; só de Vorcaro, oito aparelhos. Apenas um deles foi alvo da perícia até o momento.
Pessoas próximas a Vorcaro chegaram a indicar a autoridades que o ex-banqueiro não estaria disposto a envolver magistrados do STF na sua delação. Isso desagradou os investigadores. Por fim, advogados do ex-banqueiro afirmaram a autoridades que ele não pouparia ninguém, o que destravou a negociação na sua etapa inicial.
Interlocutores dos gabinetes envolvidos na tramitação do caso pretendem encaminhar a negociação com severidade, inclusive tendo em vista a posição ocupada por ele no esquema investigado. Uma das ferramentas em mesa é a definição dos benefícios concedidos a ele, que serão oferecidos de acordo com a disposição de Vorcaro em colaborar com a Justiça e entregar detalhes do esquema.
Como Vorcaro é tido como o líder da organização criminosa, perdão judicial ou pena muito amena já são considerados descartados. As contrapartidas a ele devem girar em torno de melhorar as condições impostas ou reduzir tempo de prisão ao final do julgamento.
Atualmente, os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli estão no centro de suspeitas envolvendo autoridades, devido às menções e conversas identificadas no celular do ex-banqueiro. Ambos negam qualquer irregularidade.
Mensagens foram trocadas entre Vorcaro e Moraes no dia de sua primeira prisão, em 17 de novembro passado. O jornal O Globo revelou que o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, foi contratado pelo Master, por R$ 129 milhões, entre 2023 e 2025.
Já Toffoli, que era o relator do caso no STF antes de Mendonça, deixou a função após vir à tona a informação, revelada pela Folha, que uma empresa do ministro foi sócia de um fundo de investimentos da rede do Banco Master no resort Tayayá.
O ex-banqueiro cumpriu a primeira etapa da delação, a assinatura do termo de confidencialidade com as autoridades, na última quinta-feira (19).
Até então, a equipe de defesa que atuava no caso recusava a possibilidade de uma delação. Nos bastidores, a informação era a de que Vorcaro insistia que poderia explicar todas as acusações contra ele no mérito do processo, ou seja, sobre as fraudes e os crimes financeiros.
Com a mudança de estratégia, ele terá de confessar condutas criminosas, explicá-las e indicar provas para embasar a narrativa feita por ele aos investigadores.
Assim, muitos indícios ainda devem ser identificados pelos agentes envolvidos de forma autônoma, sem a participação de Vorcaro.
FolhaJus
A newsletter sobre o mundo jurídico exclusiva para assinantes da Folha
Investigadores entendem, no entanto, que parte dos fatos só será esclarecida caso ele próprio decida relatar. Os policiais têm indicações de algumas das práticas, mas a colaboração da figura central do escândalo financeiro daria mais elementos e poderia gerar mais desdobramentos no caso.
Vorcaro também precisará dar atenção ao rombo provocado pelo esquema. Os custos da quebra do Master superam os R$ 57 bilhões até o momento, segundo dados divulgados.
Somente os recursos que terão de ser ressarcidos aos clientes pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos), mantido com recursos dos bancos, são estimados em R$ 51,8 bilhões.
O valor da perda total é incerto. Já estão sendo apurados os prejuízos causados ao BRB (Banco de Brasília), fundos pensão e empresas.
O termo de confidencialidade assinado por Vorcaro serve para garantir que, caso o acordo não seja concretizado, nada do que ele disser durante as negociações poderá ser usado contra ele.
A partir de então, Vorcaro passou a ter reuniões com os próprios advogados para debater os fatos investigados. As primeiras reuniões são feitas internamente, entre colaborador e defesa. Quando eles entenderem que estão preparados, passam a discutir o material reunido com as autoridades.
Neste momento, tem início um processo de checagem sobre o que os investigadores entendem fazer ou não sentido, ser insuficiente, se tem ou não prova para corroborar a narrativa feita por Vorcaro. Esta etapa serve para fechar uma base de fatos e depois disso é que se avança para os depoimentos em si.









