IA generativa é fruto de ‘roubo’, diz publisher do NYT – 01/06/2026 – Tec

IA generativa é fruto de 'roubo', diz publisher do NYT - 01/06/2026 - Tec

Compartilhe

Os chatbots de inteligência artificial generativa, como ChatGPT, Claude e Gemini, são frutos de “um roubo descarado de propriedade intelectual que ocorreu em uma escala sem precedentes”, afirmou o publisher do New York Times, A.G. Sulzberger, nesta segunda-feira (1º). Segundo o executivo, esse é o “pecado original que anima os produtos de IA”.

Conforme Sulzberger, as empresas de IA —em contraste com o setor de streaming, que remunera produtores culturais— adotaram uma postura parasitária semelhante à da plataforma Napster, protagonista do principal caso de pirataria digital na Justiça americana. “Um pesquisador sênior da Microsoft escreveu que uma das principais promessas dos grandes modelos de linguagem é sua capacidade de usar os dados de treinamento para substituir o trabalho pago daqueles que criam tais dados.”

Na liderança da transição digital do jornal New York Times desde 2018, o executivo afirma que as companhias de tecnologia dominaram a atenção da população sem incentivar o trabalho de reportagem local e de investigação. O resultado é um “sequestro da praça pública”, disse ele em discurso de quase 40 minutos na abertura do congresso anual da Wan-Ifra (Associação Mundial de Editores de Notícias), o principal evento de editores de jornais do mundo, realizado em Marselha, no sul da França.

Durante o congresso, que reúne 99 empresas do setor espalhadas pelo globo, Sulzberger pediu uma resposta conjunta da imprensa à mineração de dados sem compensação financeira feita pelas big techs.

“Como resultado, temo que estejamos caminhando para um futuro com cada vez menos jornalistas para fazer o trabalho caro e difícil da reportagem original: ir a lugares, conversar com pessoas, investigar informações, cobrir questões e eventos importantes, fornecer contexto e análise, investigar os poderosos”, disse o publisher. Nesse cenário, afirmou o executivo, “a sociedade e a democracia careceriam de uma fonte crucial: a verdade”.



É seguro apostar que tais ações das gigantes da tecnologia alimentarão tendências destrutivas que já estão sobrecarregando a sociedade

A companhia move uma ação contra a criadora do ChatGPT, OpenAI, e a sua parceira comercial Microsoft por roubo de propriedade intelectual. As empresas de tecnologia negam a denúncia.

Para Sulzberger, os atuais acordos de licenciamento ou micropagamentos entre jornais e companhias de tecnologia podem ser insuficientes para compensar a perda de receita e de leitores para a IA generativa. “Muitas organizações de notícias menores, cujo trabalho também foi tomado e usado por modelos de IA, não receberam nenhuma oferta desse tipo de compensação”, apontou.

Sulzberger alertou que o desvio de tráfego e receita para gigantes de tecnologia prejudica a reportagem original, elemento essencial para a manutenção de democracias saudáveis.

O Times, por exemplo, recebeu o Prêmio Pulitzer de 2026, o mais prestigiado da área, na categoria de jornalismo investigativo, ao se debruçar sobre o enriquecimento de familiares do presidente americano Donald Trump por meio da exploração de oportunidades ligadas ao prestígio da cadeira na Casa Branca. Seu principal concorrente, o Washington Post, recebeu a láurea na categoria Serviço Público ao mostrar os efeitos da demissão em massa na administração pública promovida pela gestão de Trump.

Ele apontou ainda que a reprodução ocorre sem atribuição de crédito: uma simulação de 2.267 perguntas sobre reportagens canadenses, feitas por pesquisadores com a opção de busca na internet desligada, mostrou que o ChatGPT creditava a fonte em apenas 1% das respostas. Nenhum dos concorrentes superou o limiar de 16%.

Esse padrão se repete em outros setores da economia criativa, que injetam US$ 12 trilhões ao ano na economia global, segundo Sulzberger. “Empresas de IA se apossaram de todo o corpus de obras originais da civilização, um ato que também representa um perigo para o futuro dos livros, da música, dos filmes, da pesquisa e de uma série de outras áreas.”

A escritora americana Margaret Atwood, autora da distopia “O conto de Aia” (1985), comparou a competição com a IA generativa a ser “assassinada por sua própria réplica”.

“É seguro apostar que tais ações das gigantes da tecnologia alimentarão tendências destrutivas que já estão sobrecarregando a sociedade. Um declínio contínuo na reportagem original, um aumento contínuo de desinformação, propaganda, teorias da conspiração, deepfakes e lixo gerado por computador. Um público que continua a ser radicalizado por algoritmos que amplificam o medo, a raiva e a divisão.”

Ao mesmo tempo, uma porcentagem crescente de pessoas depende da IA para se informar e tomar decisões, segundo Sulzberger. “Alguns a consideram mais confiável do que a organização de notícias de que dependem para suas respostas. Tudo isso piorará o declínio alarmante da saúde social e cívica.”

O executivo do Times teme que a humanidade caia em uma espiral de niilismo. “O efeito não é apenas que as pessoas acreditam em coisas falsas; é que elas não acreditam mais em coisas verdadeiras.”

Ele diz que essa combinação tóxica já tem levado mais pessoas a buscarem a desconexão da internet. Dados do Pew Research Center mostram que os Estados Unidos vivem ao mesmo tempo seu pico de acesso à internet, em vício em smartphone e de sensação de isolamento social. “As empresas de tecnologia balançam as mãos para isso e dizem: ‘Não é nossa culpa.'”

Sulzberger convocou a imprensa profissional a proteger seu valor diante do avanço das gigantes da tecnologia. “As big techs costumam repetir que ‘a informação quer ser livre’, mas não podemos nos dar ao luxo de ser tão ingênuos desta vez.”

Segundo o publisher, a frase clássica do Vale do Silício, atribuída ao filósofo Stewart Brand, possui uma segunda parte frequentemente omitida: “A informação quer ser cara porque é tão valiosa. A informação certa no lugar certo apenas muda sua vida.”

Fonte

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *