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A NÊGA ME TIROU O ENCOSTO: A estreia de Juçara Naccioli com “Chão Batido”

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Por Eduardo Mahon

Fiquei besta comigo mesmo. Em geral, não me contenho diante de um livro que me cause forte impressão. Quando recebi “Chão Batido”, de Juçara Naccioli (Editora Cálida, 2021), li com a costumeira sofreguidão dos usuários de psicotrópicos, muito embora seja essa a minha natureza ao largo de ritalinas e dormonides. Faz três semanas que não digo nada. É preocupante. Talvez a resenha não tenha vindo porque viajei com as crianças. Daí que dobrar cuecas, meias, pijamas, guardar escovas de dentes e arrumas as malas é atividade inconciliável com resenhas literárias. Contudo, a despeito de praia e de um episódico camarão, voltei correndo para cumprir o que julgo uma missão: escrever. Pus o pé no laço e não consigo sair disso.

Juçara Naccioli é autora do livro “Chão Batido”

 

O que mais me atrai na crítica literária é associar o novo ao velho, denunciando o que os autores contemporâneos acreditam ser o novo. Novo não há. O mito da originalidade é uma vaidade que nós autores amamos cultivar. Sabemos que é sonho e que, em breve, vira um crítico a nos atormentar o sonho de grandeza e de singularidade. O que que há é o mérito do re-olhar. Esse olhar de novo para o velho pode perceber para o até então o não olhado e o mal olhado. Revisionismo? Sim, mas com uma boa dose de invenção. Aí está a localização de Juçara Naccioli. A questão dela é dúplice: a linguagem e a temática, o que alarga o alcance da discussão sobre o livro.

Ao receber a obra, a autora me advertiu – é para ler de forma contínua. Achei incômoda a prescrição. Soou como bula de remédio. Ler 4 poemas ao dia, de 6 em 6 horas. Negativo. Após lançado, o livro não pertence mais ao autor. Pode ele revisar, suprimir, acrescentar em novas edições, não interessa. Este “Chão Batido” que tenho em mãos é meu e de mais ninguém. De qualquer forma, com espírito desarmado e até afável, cumpri o receituário e, claro, encontrei a lógica da autora. Trata-se de episódios de um ritual, sessões de atendimento espiritual e de orientação ética. Portanto, tinha tudo para ser ruim, mas é bom. Como é que pode?
A começar pela língua, quero lembrar Mário de Andrade. Coitado, morreu atormentado. Queimava-se no fogo anacrônico do movimento que ajudou a formular. Crítico de si mesmo, foi um dos raríssimos autores que percebeu o esgotamento da proposta autointitulada inovadora. Para estes, Edward Said guarda os maiores elogios. Bem, Mário de Andrade revisou algumas vezes a Semana de Arte Moderna de 1922. No último texto (parece mais um mea culpa masoquista), o intelectual se sai com uma tirada genial: chama de mito “escrever naturalmente”.
Claro que sabemos todos que o ato de escrever é uma elaboradíssima composição que é falseada por inúmeros escritores que dizem se levar por um fluxo de consciência como os antigos surrealistas. Não cola. Mesmo que escrevam de forma contínua, a linguagem já está estruturada na cachola faz um tempo. Então, Mário de Andrade vai além do óbvio. No fim da vida, não abandona o traço de vanguarda: “Saber escrever está muito bem; não é mérito, é dever primário. Mas o problema verdadeiro do artista não é esse: é escrever milhor. Toda a história do profissionalismo humano o prova. Ficar no aprendido não é ser natural: é ser acadêmico; não é despreocupação: é passadismo”.
O que dizer? O mais conhecido antimoderno modernista que tivemos está completamente certo e francamente equivocado. O escrevinhar naturalmente é um mito, uma abstração romântica que se aproxima a receber no corpo uma entidade sobrenatural. De fato, saber escrever é o básico da profissão. Mas Mário queria mais. Sonhava em romper com a gramática portuguesa e inventar um conjunto de normas brasileiras. Ele, claro, seria o pai desse novo bê-á-bá. Tudo o mais seria passadismo. Ledo engano. Não é preciso ser muito lido para saber que é possível ruminar toda a tradição e cuspir algo diferente. Noves fora, a matéria-prima é a mesmíssima.
De qualquer forma, esse último grito modernista ficou no ar e contaminou inúmeros escritores brasileiros. Juçara Naccioli, entre eles. A escritora meteu-se numa arriscadíssima trilha: a tentativa de deslocar o popular, reproduzir o natural, documentar a linguagem corrente. Em geral, os autores sucumbem. Caem num abismo artificial e fazem de seus personagens caricaturas horrendas. Não é todo o povo brasileiro que fala “milhor”, nem “demais de bom”, nem “trem bão”, nem “trilegal”. Esse mito de “escrever naturalmente” resulta em fantasias populares que o próprio Mário de Andrade denuncia. E o faz apontando o dedo para si mesmo, o que é a mais sincera advertência para os outros.
Daí que comecei a ler “Chão batido” e já torci o nariz. Elitismo é? Não. Pura malícia. Essa novíssima gramática já é velhíssima. Para mim, a questão não era essa. Importa enxergar a organicidade da composição. Como já apontei, esse deslocamento do popular para a literatura não é um mero registro. Tarefa dificílima. Mais fácil crescer cabelo na minha amplíssima calva. Juçara Naccioli conseguiu na maior parte do seu livro de estreia. Largou mão de debutar com o costumeiro livrinho de sonetos, como ironizava Mário de Andrade. Jogou-se de corpo todo. Arriscou. Podia dar cabeçada. E deu ao misturar linguagens numa altura adiantada do livro, o que foi uma pena. Mas só quem ganha é quem aposta. O livro é um prêmio.
A temática? Não só o pobre. Não só o periférico. Não só o popular. Não só o negro. Não só a mulher. Não só a mulher negra. Não só o óbvio ululante de Nelson Rodrigues. Juçara Naccioli fez um inteligente recorte. Juntou tudo isso numa figura. O melhor: ela fala, critica, aconselha, remói. Daí que o tema anda abraçado com a linguagem na tal organicidade – uma palavra da qual tenho antipatia, mas não encontro uma outra melhor que a substitua. Esperando encontrar a velha artificialidade de quem fala do Brasil como se fosse um estrangeiro (ampla maioria), destorci o nariz e abri um sorriso ao terminar “Chão Batido”. Aquela nega me faturou completamente, me tirou o encosto do azedume.
Dificilmente vou ser jurado. Vou jurar o quê? Isenção? Não faz a minha linha. Nem morto. Este ensaio é uma espontânea confissão de suspeição. Suspeitíssimo. Não me interessa o que vão dizer. Sou partidário, faccioso, figadal. Até pagarem minha conta de luz, ninguém tem nada com isso. Fico imaginando o que eu diria na primeira reunião do júri literário. Eu jurado – é Chão Batido na cabeça! O clima ficaria pesado, azedo, sorumbático. A partir daí, seria uma luta horrível comigo mesmo. Só uma personalidade múltipla me salvaria. O sofisticado “Com Por” de Aclyse Mattos, o maduro “Jardim de Ossos” de Marli Walker, o debochado “Abobrinha” de Lorenzo Falcão. Qual deles, meu Deus?
Não ia demorar 5 minutos para eu largar o juramento, o júri e os jurados. Essa história de crítica é um negócio traiçoeiro. Fato é que gostei do “Chão Batido”. E, quando gosto, adoro. Quando adoro, amo. Quando amo, me entrego. Vinícius estava certo – que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure. Até aparecer outro livrinho surpreendente, estou enrabichado pela nega de Juçara Nacioli. Aos invejosos, carentes e ciumentos em geral, peço que não atrapalhem o caso. Procurem o terreiro da nega. Escrevam. Seduzam. Arrebatem. O que mais precisamos é desse tipo de xodó.

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Eduardo Mahon é advogado, escritor e pesquisador

 

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