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Ai, a minha foi Pfizer”: parem de tratar vacina como bolsa de grife

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Impfarroganz, algo como "arrogância da vacina" é a palavra que os alemães inventaram para quem decide escolher qual marca escolher

A Alemanha criou mais de 1.200 palavras novas durante a pandemia do coronavírus.”Geimpftenparty”, por exemplo, significa festa só para vacinados. “Covidiots”, os negacionistas do Corona. Mas a minha favorita do momento é “Impfarroganz” (arrogância da vacina).

A tal arrogância é o ato de escolher que vacina quer tomar com esnobismo, como se uma vacina que pode salvar sua vida no meio da pandemia fosse um vinho caro e você um enólogo que cheira um, cheira outro e não se decide por nenhum. Só que, se é para usar metáfora, esse enólogo está provando vinho em uma praia onde está vindo um tsunami.

A arrogância da vacina é super comum na Alemanha, onde moro. Esse é um país rico, onde as pessoas teoricamente podem escolher que vacina vão tomar. Mesmo assim, na prática não existem todas disponíveis ao mesmo tempo. Por isso, muitas pessoas rejeitaram a vacina AstraZeneca (uma perdedora no mundo das vacinas, tratada como uma peça de roupa que ninguém quer e por isso vai parar no saldão) para “esperar pela Pfizer” (uma espécie de bolsa de marca que todas querem).

O esnobismo foi tanto que, no início de maio, as autoridades de Berlim decidiram acabar com a prioridade para quem quisesse tomar a AstraZeneca. A partir daí, qualquer pessoa com mais de 18 anos que conseguisse marcar um horário em um consultório médico com vacina podia tomar. Eu, com muita alegria, fui uma dessas pessoas e aguardo com ansiedade minha segunda dose de AstraZeneca. Mas, claro, ainda ouço amigas dizendo: “ah, a minha é Pfizer!”, com aquela arrogância que só os fanáticos por grifes têm.

O mesmo fenômeno cresce no Brasil agora que a vacina não é mais só para grupos prioritários. “Ai, eu quero Pfizer”, murmuram vários, como se a vacina fabricada nos Estados Unidos em parceria com a companhia alemã Biontech fosse uma bolsa da Prada. Na verdade, a predileção por marcas de vacina me lembra o primeiro surto de logomania que já presenciei na vida. Quando era adolescente, todo mundo queria ter uma mochila da Company. Quem não tinha, era um perdedor, um renegado. Muitos anos depois, no meio de uma pandemia mundial, nosso apego por marcas é tão grande que a vacina da Pfizer virou a nova mochila da Company.

Mas nem todos pensam assim. Ufa. “Não faço questão se é X, Y ou Z. Quero ser vacinada. Isso é o mais importante”, disse a cantora Teresa Cristina, de 53 anos, ao ser vacinada ontem (14).

Epidemiologistas sérios concordam com Teresa e repetem a toda a hora que todas as vacinas que foram aprovadas pela Anvisa e pela OMS (Organização Mundial de Saúde) são boas. E o importante no momento é que o maior número de pessoas seja vacinada, seja de Pfizer, de CoronaVac, AstraZeneca ou Sputnik. Mas não adianta. Já existem relatos de que em certos bairros de classe alta as pessoas voltam do postinho sem vacina porque “não tinha Pfizer”.

Não é possível que a gente seja tão mimado…

Fonte: Uol

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