Empresas chinesas estão comprando um número crescente de marcas de consumo estrangeiras, à medida que a intensa concorrência doméstica transborda para setores internacionais relativamente distantes das tensões geopolíticas.
Poucos meses depois de o conglomerado chinês de vestuário Anta adquirir uma participação de 29% na Puma por 1,5 bilhão de euros (R$ 8,7 bilhões), a varejista de moda ultrarrápida Shein fechou nesta semana um acordo para adquirir a marca de roupas “sustentável” americana Everlane por cerca de US$ 100 milhões (R$ 501,3 milhões).
A Everlane está sendo vendida pela L Catterton, uma firma de private equity apoiada pela LVMH que detém participação majoritária na varejista de básicos sediada em São Francisco (EUA) desde 2020.
A Nestlé confirmou no mês passado que vendeu sua participação majoritária na rede americana Blue Bottle Coffee para a Centurium Capital, acionista controladora da Luckin Coffee, conhecida por preços baixos e que possui dezenas de milhares de lojas na China.
O apetite das empresas chinesas por fusões e aquisições no exterior aumentou após anos de concorrência implacável e pressões deflacionárias em casa.
Houve US$ 2,4 bilhões (R$ 12 bilhões) em acordos de bens de consumo no exterior no primeiro trimestre deste ano, quase todos na Europa e América do Norte. O total de US$ 6,8 bilhões (R$ 34 bilhões) do ano passado foi o maior desde 2018, segundo dados da consultoria Rhodium Group.
“Bens de consumo é um dos poucos setores que permanece relativamente aberto ao investimento chinês em economias avançadas”, disse Armand Meyer, analista da Rhodium.
“Empresas chinesas com marcas domésticas maduras estão buscando expandir sua presença internacional em um momento em que a economia doméstica está desacelerando”, acrescentou. “Adquirir marcas estrangeiras estabelecidas é um caminho mais rápido e eficaz do que construir do zero.”
A participação da Anta na Puma é a mais recente em uma estratégia de longo prazo de aquisições no exterior, incluindo a compra em 2019 da Amer Sports, dona da Hoka, Salomon e Arc’teryx, antes de a Amer ser relistada em Nova York em 2024. A Anta também comprou a empresa alemã de vestuário Jack Wolfskin e detém os direitos da Fila na China continental.
“A Anta é um exemplo emblemático desse tipo de estratégia”, disse Josh Perlman, chefe da Grande China na Authentic Brands Group. A Authentic Brands está em processo de relançar a Reebok na China, assim como a marca de luxo americana Guess, que este ano fechou todas as suas lojas na China.
Folha Mercado
Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.
O investimento externo total da China foi de US$ 27 bilhões (R$ 135,3 bilhões) no ano passado, o maior desde 2020, impulsionado em parte por ativos de mineração em economias emergentes. Sua vasta indústria de veículos elétricos também está se expandindo globalmente.
No entanto, esse número é ofuscado pelos mais de US$ 200 bilhões (R$ 1 trilhão) em fusões e aquisições no exterior em 2016, pouco antes de as tensões comerciais eclodirem no primeiro mandato do presidente dos Estados Unidos Donald Trump e continuarem a escalar ao longo da década seguinte.
Na semana passada, Trump pediu a Xi Jinping que “abrisse” a China na primeira visita presidencial a Pequim em uma década, acompanhado por uma série de líderes empresariais, incluindo o chefe da Tesla, Elon Musk, e Jane Fraser, do Citigroup.
Marcas chinesas, da concorrente da Zara Urban Revivo à Mixue, uma rede de bubble tea com mais lojas que o McDonald’s, quase todas na China, têm buscado expandir as atividades nos EUA.
Embora bens de consumo sejam tipicamente menos sensíveis que muitos outros setores, tem havido intenso escrutínio na Europa, onde a União Europeia e a França lançaram investigações sobre as vendas da Shein de bonecas sexuais com aparência infantil, armas como soco-inglês e outros objetos ilegais através de seu marketplace de terceiros. A oferta da JD.com pela Ceconomy, uma varejista alemã de eletrônicos, foi atrasada por revisão regulatória.
A Everlane é conhecida por seus produtos sustentáveis e diz que prioriza “menos insumos e resultados mais limpos em nossos processos”.
O CEO da Everlane, Alfred Chang, disse que a marca permanecerá independente após sua aquisição pela Shein e continuará “fiel aos nossos valores de marca de longa data, compromissos de sustentabilidade e qualidade excepcional”. O acordo com a Shein pode acelerar o progresso da Everlane e dar-lhe “maior alcance”, acrescentou.
Perlman, da Authentic Brands, disse que as condições na China, desde cadeias de suprimentos industriais até a base de conhecimento do país, estão criando “monstros”.
“Não são apenas marcas de vestuário, pode ser uma marca de carros, pode ser uma marca de milk tea… vai haver muitos conceitos saindo da China que podem ser globais”, afirmou.









