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Investigações ligam sumiço de 6 homens em fazenda a morte de criança

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Na noite de 26 de março de 2020, o estudante Hugo Gabriel Mascarenhas Padilha, de 11 anos, conversava com o pai na sala de sua casa em um bairro na periferia de Sinop, a 480 km de Cuiabá (MT), com a cabeça recostada num sofá. Ele tinha jogado bola e tomado banho e aguardava sua mãe, evangélica, chamar a família para uma oração em casa (era o começo da pandemia e o pastor da Assembleia de Deus havia recomendado que as famílias orassem nas residências).

Nesse momento houve “um estrondo”, conforme descreveu sua mãe em entrevista ao UOL. Hugo foi assassinado com um tiro de espingarda calibre 12 disparada da rua. A bala atravessou a porta da sala, feita de blindex, e atingiu a cabeça da criança. O pai, um funileiro de automóveis, disse depois à polícia que após o tiro ainda conseguiu ver três homens entrando num carro com vidros escuros, que “saiu em alta velocidade”.

A mãe, em choque, foi segurada para não entrar na sala e ver o corpo do filho, que morreu na hora. “Eu não sei quem fez, não conheço nenhuma das pessoas, não vi nada. Como sou evangélica, não quero que ninguém faça justiça com as próprias mãos. Espero a justiça de Deus na vida dessas pessoas. Não sei o que Deus vai fazer, quero que Deus faça alguma coisa. Tiraram a vida de uma criança inocente e foi por coisa que o pai também não tinha nada a ver”, disse a mãe, que meses depois se separou do marido – os nomes de ambos serão aqui preservados.

O que a mãe de Hugo não sabia era que a investigação sobre o desaparecimento de seis homens na fazenda Promissão, em União do Sul (MT), em abril de 2020 – depois que o proprietário chamou a Polícia Militar para, segundo ele, protegê-lo de um roubo que supostamente iria ocorrer -, levou a Polícia Civil a indícios sobre a autoria do assassinato da criança, ocorrido um mês antes da possível chacina na fazenda.

A perícia técnica feita em nove cartuchos de espingarda calibre 12 encontradas na fazenda revelou que três deles eram compatíveis com o cartucho apreendido na cena do atentado que matou o garoto. Ou seja, a mesma arma usada para dar tiros na fazenda também foi usada no assassinato da criança.

Segundo o Ministério Público, cartuchos apreendidos também apontaram conexão com outros dois homicídios “ocorridos neste ano e na região norte do Estado”. A polícia localizou na fazenda 18 cápsulas de calibres diversos e dois projéteis de armas de fogo.

A perícia no pátio da fazenda concluiu que “houve uma ação armada no sentido da esquerda para a direita”, mas “nenhum vestígio de ação contrária”. “Isso nos permite afirmar que é sugestivo uma ação ação do tipo ‘elemento surpresa’ no local, com ao menos dez PAFs [projéteis de armas de fogo] no local”, apontou o laudo final do “exame de constatação de crime contra a vida” realizado na propriedade rural.

Pai de garoto morto diz que PM também tentou matá-lo

A partir da conclusão da perícia, a GCCO (Gerência de Combate ao Crime Organizado) da Polícia Civil de Cuiabá (MT), que investiga os desaparecimentos na fazenda, localizou, “com muita dificuldade”, o pai de Hugo, que “não reside mais em Sinop, pois teme pela sua vida, pensa que as pessoas que mataram seu filho na verdade queriam matá-lo”, segundo relatório do órgão.

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O pai, em depoimento, citou dois PMs de Sinop como os principais suspeitos do assassinato do seu filho. Ele disse que entrou na mira dos policiais após um mal entendido originado em 2018. Afirmou que era usuário de drogas e passou a receber, em sua funilaria, a visita de integrantes de uma facção criminosa. Nessa época, o dono de um mercado, que seria amigo dos PMs, foi assassinado pela mesma facção, segundo ele. O funileiro disse que passou a ser visado pelos PMs como retaliação, embora afirme que nada tivesse a ver com a facção ou com o assassinato do comerciante.

Quinze dias depois da morte do comerciante, segundo o funileiro, ele estava pintando um trailer em frente de sua casa quando um policial militar, identificado nominalmente no depoimento, parou sua moto e deu vários tiros na sua direção. Uma das balas atingiu sua perna, mas ele conseguiu fugir. Em fevereiro de 2020, um mês antes da morte de seu filho, ele disse que viu uma camionete parar em frente de sua casa. Dela desceu o mesmo policial.

Outra testemunha ouvida pela GCCO, um ex-funcionário do funileiro, corroborou a história sobre as desavenças entre seu ex-patrão e os dois policiais militares.

Combinando a perícia da cápsula da bala com os depoimentos, a Polícia Civil pediu em setembro passado, no inquérito sobre a fazenda, a prisão preventiva dos dois PMs citados pelo pai de Hugo.

Um deles, o cabo Jalles Souza Dutra, fora preso pela própria PM, em 2018, durante uma operação que coibia a invasão de uma propriedade rural em Nova Ubiratã (MT), a cerca de 500 km de Cuiabá (MT), ao lado do soldado PM Roberto Carlos Cesaro, que é um dos três acusados pelo desaparecimento dos seis homens na fazenda Promissão. As prisões de Jalles e Cesaro pela sua própria corporação, a PM, foram noticiadas por vários veículos de comunicação no chamado Nortão de Mato Grosso.

“Com a conclusão dos exames de confronto balístico realizado pela Politec [perícia técnica da polícia], constatou-se que as munições de calibre 12 encontradas no local dos crimes ora apurados foram percutidas pela mesma arma utilizada no homicídio do garoto de 11 anos, um mês antes, no município de Sinop. Conforme consta, Jalles é o principal suspeito daquele homicídio e conforme relatado pelo pai da vítima, o mesmo já teria atentado também contra a sua vida com vários disparos de arma de fogo em outra oportunidade”, apontou, em relatório, o delegado Ferdinando Frederico Murta, da GCCO, da Polícia Civil de Cuiabá (MT), responsável pelas investigação do desaparecimento dos homens na fazenda Promissão.

Juíza recusou prisão preventiva de PM, que foi excluído de denúncia

O pedido da prisão preventiva de Jalles no caso da fazenda foi acompanhado pelo Ministério Público, mas a Justiça indeferiu o pedido. Na sua decisão, a juíza substituta da comarca de Cláudia (MT), Janaína Rebucci Dezanetti, apontou que, “não obstante o resultado importantíssimo da perícia, não houve comprovação” de que, na investigação do homicídio do garoto Hugo, o policial Jalles e outro colega “foram indiciados pelo delegado responsável ou que houve naquele procedimento inquisitivo pedidos de prisão ou busca e apreensão da arma supostamente utilizada por Jalles”.

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De acordo com a magistrada, “deferir o pedido de prisão preventiva com base no resultado pericial de balística seria presumir que os representantes [PMs] de fato cometeram o crime em face do infante [Hugo], sem qualquer indício concreto nesse sentido no respectivo” inquérito policial. A magistrada qualificou a prisão preventiva como “medida extrema”.

Na sua decisão, a juíza apontou que Jalles “atualmente inativo na polícia militar, dono de uma vasta ficha criminal”, teve o sigilo de seu telefone celular quebrado durante a investigação sobre os desaparecimentos na fazenda. A polícia concluiu que ele “ficou aproximadamente oito horas sem sinal” entre os dias 18 e 19 de abril de 2020, voltando a restabelecer ligações às 12h43 do dia 19, em Sinop. O desaparecimento dos seis homens, segundo a investigação, ocorreu na noite do dia 18.

Por outro lado, a juíza autorizou as prisões temporárias dos três PMs relacionados pela polícia e pelo MP ao caso da fazenda: Cesaro, o 2º sargento da PM Evandro dos Santos e o soldado PM João Paulo Marçal de Assunção. Após passar cerca de dois meses em prisão, os três foram soltos e hoje respondem ao processo em liberdade. O dono da fazenda Promissão, Agenor Pelissa, foi acusado de fraude processual e também responde ao processo em liberdade.

Na denúncia ajuizada pelo Ministério Público sobre os desaparecimentos na fazenda, em abril passado, o Ministério Público excluiu o nome de Jalles, por entender que os indícios de sua presença na fazenda, no ato da possível chacina, eram insuficientes para a denúncia.

Ao prestar depoimento à Polícia Civil, em setembro de 2020, Roberto Carlos Cesaro se reservou “ao direito de permanecer em silêncio e falar somente em juízo”. Sua advogada, Ana Paula Moura, disse ao UOL na semana passada que ele não esteve na fazenda Promissão em abril de 2020 e que terá como comprovar, ao longo do processo, que não está envolvido com o crime.

Procurado, o cabo Jalles ou seu advogado não foram localizados pela reportagem. De acordo com relatórios da Polícia Civil, atualmente ele está afastado da PM, na condição de reformado – desobrigado, definitivamente, do serviço militar e considerado pensionista, ou não, do Estado -, e residiria na cidade de Cascavel (PR). Em despacho, a juíza de Cláudia (MT) apontou que Jalles “foi monitorado no início das investigações sobre os crimes praticados na fazenda Promissão e logo após os fatos passou a residir em Cascavel/PR”.

O UOL indagou sobre a atual situação de Jalles na Polícia Militar, mas o Comando da PM de Cuiabá não deu uma resposta sobre esse ponto. Em nota, há duas semanas, o Comando informou, na íntegra, sobre o caso da fazenda Promissão e os policiais Santos, Cesaro e Marçal: “A Corregedoria da Polícia Militar de Mato Grosso relata que a situação envolvendo policiais militares é objeto de investigação pela PMMT, através de Inquérito Policial Militar, que, finalizado, foi encaminhado à Justiça Militar Estadual. Esclarece que os militares investigados encontram-se em atividades internas, à disposição da administração militar para responderem ao devido processo disciplinar”.

Em depoimentos prestados no inquérito aberto pela PM para investigar o caso da fazenda, os PMs Santos e Marçal reconheceram ter estado na fazenda Promissão no mesmo dia dos desaparecimentos, mas negaram ter presenciado qualquer tiroteio e negaram qualquer participação no desaparecimento dos homens.

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