Joias Ecologicas, de crédito de carbono, foca na Amazônia – 28/04/2026 – Economia

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Uma empresa fundada no ano passado por nomes do mercado financeiro aposta na contratação de ex-servidores do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) para conseguir adentrar comunidades extrativistas da amazônia e convencê-las a aderir a projetos milionários de crédito de carbono.

Dos 12 funcionários da Joias Ecológicas, quatro trabalhavam há poucos anos no órgão público, justamente em contato com as comunidades agora requisitadas.

O modelo de negócios surgiu a partir de conversas entre o ex-Faria Lima Pedro Plastino e o ex-assessor sênior da presidência do BNDES Rodrigo Brandão. Os dois se conheceram durante um programa de pós-graduação em Harvard e, de lá, tiveram a ideia de criar projetos de crédito de carbono em reservas extrativistas (Resex) na Amazônia –como são chamadas áreas públicas concedidas a populações extrativistas tradicionais.

Os projetos precisam ter a anuência das comunidades, que receberão 70% do faturamento líquido da empresa quando os créditos forem emitidos. Ao todo, a empresa pretende faturar US$ 20 milhões por ano quando todos os 14 projetos estiverem estruturados, o que deve acontecer até 2029. Cada projeto requer investimentos de cerca de US$ 2 milhões.

Nesse caso, um crédito de carbono equivale a uma tonelada de carbono que deixou de ser emitida a partir da conservação de árvores e do uso sustentável dos recursos naturais da reserva (como o plantio de cacau, castanha e açaí e a pesca de pirarucu, caranguejo e ostra).

A contabilidade é feita por certificadoras privadas, como a Verra, e os créditos são vendidos a grandes empresas poluidoras –a Joias Ecológicas diz ter conversas avançadas com uma multinacional brasileira para assinar contratos antecipados de fornecimento, o que pode garantir à empresa R$ 40 milhões já neste ano.

Para entrar nessas comunidades, Plastino e Brandão contrataram Fábio Menezes de Carvalho, servidor licenciado do ICMBio que até 2023 era gerente regional do órgão na amazônia. Na função, Carvalho era o responsável por coordenar todo o serviço do ICMBio na região, inclusive a gestão de reservas extrativistas.

Foi ele, já como representante da Joias Ecológica, que convenceu as comunidades que moram na Resex Médio Purus a aderir ao primeiro projeto de créditos de carbono da empresa. A reserva, de 604 mil hectares, fica localizada no sul do Amazonas e está dentro de municípios que abrigam 33,5 mil pessoas.

“O Fábio conhece todos os servidores do ICMBio na amazônia e soube pegar os melhores para trabalhar conosco”, diz Pedro Plastino à Folha. “É a junção da amazônia com a Faria Lima.”

Desde então, já foram contratados Fábio Oti, ex-coordenador regional do ICMBio na Amazônia; Luã Rocha, ex-chefe de unidades de conservação no Acre; e Erick Pinho, ex-coordenador territorial do ICMBio em Santarém (PA).

Oti, por exemplo, foi designado para gerenciar o contato da empresa com pescadores tradicionais e marisqueiros que moram em Resex marinhas. Ele trabalhou no ICMBio até o ano passado, quando era responsável por gerir 42 unidades de conservação no Amapá, Tocantins, Maranhão e Pará, inclusive aquelas com reservas marinhas.

Hoje, ele mantém conversas com comunidades de três reservas marinhas localizadas no Pará, que abrigam cerca de 30 mil pessoas. A expectativa da empresa é assinar os contratos com as comunidades até o final do ano e emitir os créditos de carbono até 2029.

“Eu sou de Belém e me criei em uma dessas unidades de conservação”, afirma Otti. “Como eu venho dessa caminhada, a relação fica mais fácil, porque eu entendo o que eles querem para o futuro e consigo desenvolver um projeto.”

Já Luã Rocha agora é responsável pela coordenação dos projetos da Joias no Acre, Rondônia e Amazonas. Ele atuou pelo ICMBio de 2017 a 2024 em Resex próximas à fronteira com o Peru, tanto gerenciando as áreas quanto fazendo a resolução de conflitos. “Estamos avançando a prospecção em uma delas; já fizemos as apresentações e agora estamos aguardando o convite para fazer o processo de consulta livre prévia e informada.”

“Na carreira ambiental de maneira geral, mas em específico no ICMBio, há muita evasão, tanto de servidores efetivos quanto de comissionados. A rotatividade é grande, justamente pela falta de investimentos e qualidade no ambiente de trabalho”, afirma.

O ICMBio vive com problemas orçamentários há anos. Como a Folha mostrou, em 2026 o recurso para fiscalização ambiental e prevenção de incêndios florestais em unidades de conservação federais, que deve ser gasto pelo ICMBio, foi reduzido em 6%, de R$ 209 milhões para R$ 197,1 milhões. Procurado, o ICMBio não respondeu aos questionamentos da reportagem.

A lei de conflitos de interesses para servidores federais impede ex-funcionários de órgãos públicos de atuarem para empresas ligadas à área em que trabalhavam por até seis meses após deixarem o funcionalismo público. A legislação cita como exemplo de proibições “intervir, direta ou indiretamente, em favor de interesse privado perante órgão ou entidade em que haja ocupado cargo ou emprego ou com o qual tenha estabelecido relacionamento relevante em razão do exercício do cargo ou emprego”.

A Joias Ecológicas disse que os ex-servidores do ICMBio contratados já haviam se desvinculado do órgão há mais de seis meses.

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