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ARTIGOS

Leonardo Coutinho

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| Foto: BigStock

Em qualquer loja de quinquilharias chinesas é possível encontrar um brinquedinho feito com tiras de palha trançadas em forma de cilindro que tem em suas extremidades um orifício que serve para enfiar o dedo indicador ou qualquer outro – já que o efeito é o mesmo. Instintivamente, quem não conhece o truque tenta se livrar dele puxando os dedos em sentidos opostos. O resultado é que o esforço se torna inútil já que quanto mais se puxa, mais a trama fica apertada. O segredo para se livrar é distensionar a trama para, assim, se libertar sem muitos esforços.

Diz a lenda que Lao Tzu, um dos alegados pais da filosofia chinesa, que teria vivido no século seis antes de Cristo, seria o inventor da armadilha chinesa. Um dos vários exageros em torno do personagem. Há quem acredite que Lao seja um deus, enquanto alguns historiadores afirmam que ele sequer existiu. O que é uma pena. Pois o artefato ensina muito dos fundamentos do expansionismo chinês (político e militar), cujo modus operandi tem suas raízes na filosofia milenar chinesa.

Globalmente, a China tem comprado menos. O que é explicado pelos efeitos do coronavírus. Mas essa lógica não se aplica na relação dos chineses com o mercado brasileiro. Em maio, um fenômeno extraordinário foi registrado na balança comercial brasileira. O mundo inteiro registrou uma dedução da demanda, inclusive a China deu uma freada nas suas importações. Mas em relação ao Brasil, o país asiático fez um movimento diferente. Em maio, as exportações brasileiras para China cresceram 35,2% quando comparadas com abril.

Combinado com a retração dos outros países, o crescimento das importações chineses resultou em algo inédito: eles compraram 40,4% de tudo que o Brasil vendeu para o mercado externo em maio. Para entender o incremento do peso da China nas exportações brasileiras, no mesmo mês de 2019, eles respondiam pelos já poderosos 28,6% das exportações.

Os chineses já perceberam que a balança comercial é a “algema de dedo” para o Brasil. Aumentar o seu peso para o mercado brasileiro significa fortalecer as tramas que as capacidades de o Brasil reagir a imposição dos interesses da China, caso seja necessário.

O brinquedinho chinês nos ensina que quanto mais força se aplica para se libertar dele, menores são as chances, pois a tensão provocada amplia o poder da armadilha. E quando a brincadeira envolve duas pessoas, não basta um querer sair. É preciso que o oponente também esteja disposto a fazer o mesmo.

O que vemos então? Quando o Brasil tentar “puxar o dedo” sentirá o poder do garrote chinês. Não há saída se os dois lados não distensionarem para desarmar a armadilha. Ainda que o Brasil tente, se o “lado chinês” – para usar uma expressão recorrente do embaixador Yang Wanming – não relaxar, ambos seguirão atrelados.

Assim como as economias do Estados Unidos e da China se mimetizaram formando a Chimérica, as do Brasil e China também tiveram o mesmo destino. A Brachina é uma realidade imutável. Mas os brasileiros não precisavam ser tão bobos.

A Quimera, que surgiu da relação econômica entre os dois países, presume um nível de mutualismo entre os organismos que a compõe tão evidente que soa primário acreditar que políticos e formadores de opinião brasileiros ainda não entendam que a sobrevivência de um está atrelada a do outro.

A China é importantíssima para economia brasileira. Mas o Brasil é vital para a sobrevivência da China e a estabilidade do regime que local. Um vive sem o outro? Não. Mas então por que insistimos em nos comportar como subalternos aceitando tudo a qualquer preço?

Qualquer vendedor de bananas sabe do risco de se ter um fornecedor único e de um único cliente. Quanto mais dependente de fornecedor ou de consumidor únicos, mais arriscado se torna o negócio. A China entende isso muito bem. Por saber do risco de desabastecimento, ela trabalha para resolver o problema. Como não muitas opções de diversificação, ele busca o controle. Seja comprando ou sequestrando por meio de dívidas ou ferramentas de mercado. Por entender perfeitamente o poder que tem ao se transformar em cliente principal, ela tem se concentrado em manter seu poder de influência pelo dinheiro nos locais considerados mais estratégicos para o país.

Com 40% das exportações brasileiras nas mãos, os chineses já prenderam o Brasil em uma trama de palha em escala estatal. Resolveram os problemas deles de abastecimento e empurram cada vez mais os brasileiros para o perigoso papel de fornecedores de cliente único.

Como chegamos a isso? Uma combinação do comportamento bovino das lideranças políticas brasileiras nas últimas décadas, preguiça de abrir novos mercados e falta de visão estratégica e de segurança nacional.

Tudo isso veio acompanhado da arrogância e desmazelo dos Estados Unidos para com a região. Em um momento em que os americanos tentam recuperar o espaço perdido no mundo e tentam redirecionar seu consumo para o Ocidente, eles assistem impassíveis a China comprar relevância. E não só no Brasil.

Na Argentina, por exemplo, os chineses são o principal parceiro comercial tendo superado o Brasil. Lá, assim como no caso brasileiro, os chineses estão entrando como força total para garantir quase que a exclusividade do mercado de carne e grãos.

Lao Tzu não inventou a armadilha chinesa. Mas sua figura lendária representa a essência de ensinamentos que explicam como os chineses aprenderem a capturar seus objetivos no ocidente com zero uso de força, mas uma brutal capacidade de enredar países como Brasil em uma trama aparentemente inofensiva, mas quase impossível de desvencilhar.


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