ENTREVISTAS

Nise Yamaguchi: “Convênios que adotaram cloroquina esvaziaram seus CTIs”

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No último dia 18 de maio, foi publicado na UOL um texto do infectologista e epidemiologista Carlos Magno Fortaleza, com críticas às opiniões expressadas pela imunologista e oncologista Nise Yamagushi em entrevista ao UOL (cuja íntegra, em vídeo, pode ser assistida ao final da matéria).

Nise Yamaguchi é médica com mestrado em Imunologia e doutorado em Pneumologia pela Faculdade de Medicina da USP, diretora da Associação Brasileira de Mulheres Médicas e presidente do XXII Congresso Brasileiro de Cancerologia 2020.

A carta a seguir é a resposta de Nise Yamagushi às críticas de Carlos Magno Fortaleza:

“Considero este momento crítico que nós vivemos, de profunda reflexão, com toda a dificuldade dos sistemas de saúde públicos de contemplarem os atendimentos dos pacientes graves, dentro da crise mundial. Temos também uma crise de credibilidade dos estudos da hidroxicloroquina e cloroquina, sendo publicados em grandes revistas médicas, procurando evidências substanciais criadas em plataformas pseudo-tecnológicas que buscam alavancar ações de absoluta inconsistência e detrimentais à vida humana”, disse.

“Aqueles que acreditam que o tratamento deva ser precoce com hidroxicloroquina, azitromicina e zinco do COVID-19, para combater a fase inicial de replicação viral, objetivam diminuir em 95% ou mais, a chance dos pacientes irem para a UTI e serem entubados, em sofrimento desnecessário. Outros que não acreditam, chegam a dizer que não se deve fazer nada, já que em estudos criados para demonstrarem a toxicidade de medicamento semelhante, a cloroquina usada em dose absurda, de 4,4 vezes o que seria a dose mais baixa no estudo do Amazonas, causaram arritmias fatais. Criou-se uma espécie de pandemia do medo, de problemas cardíacos graves, com uma classe de medicamentos que é usada há mais de 70 anos, em mais de bilhões de doses no mundo nas infecções por malária e doenças autoimunes e que eram considerados medicamentos essenciais da própria Organização Mundial da Saúde, e que agora prioriza o protocolo com medicamentos caros endovenosos nas suas pesquisas”, pontuou,

A revista Lancet que lançou um resultado organizado por uma companhia sem histórico de pesquisas destas proporções, e que culminou na proibição de estudos de hidroxicloroquina no Reino Unido, França e Bélgica, está sendo duramente questionada pela metodologia incerta, de fontes não seguras, e análise questionável de dados eletrônicos obtidos de forma não transparente, sem consentimento ético conhecido até o momento. Este estudo avaliou 96.032 pacientes de cinco continentes, onde 14.888 pacientes teriam sido tratados e teria demonstrado a toxicidade da hidroxicloroquina e mais risco de arritmia. O que chamou a atenção é a forma como houve a distribuição entre os continentes, muito homogênea, com dados incompletos de quanto tempo as pessoas teriam tomado as medicações, por que tomaram e o braço controle, por que não tomou. Também havia um percentual de pacientes semelhantes no apêndice 3, de pacientes fumantes nos cinco continentes, assim como de hipertensos, e de uso de estatinas, inclusive na África, que deveria diferir completamente do número de pacientes que fumam da Ásia ou da Europa. Isto e outros desatinos estatísticos estão levantando questões no mundo inteiro.

Por que tanto trabalho para tentar desmerecer um medicamento?

O que nos perguntamos é: por que um medicamento sem custo, de ação principalmente nas fases iniciais e talvez preventiva, vem sofrendo tanto escrutínio e tantos ataques violentos? Imagino eu que deva ser muito eficiente e que possa fazer a inversão da curva da pandemia. Pelo menos é isto que tem sido visto em diversos convênios médicos que já adotaram esta estratégia de tratamento precoce e têm os seus centros de terapia intensiva se esvaziando e dando espaço para que cirurgias de câncer e de doenças importantes de serem tratadas também possam ser realizadas em meio a este momento importante da história da humanidade.

Também parece que todos que chegam com alguma solução para esta crise são alçados imediatamente a candidatos ao posto executivo de Ministro da Saúde. Em primeiro lugar, este é um lugar que cabe aos fortes, que possam sofrer incessantemente aos ataques de todos que almejam o cargo, e também de toda a torcida de diversos matizes, pois existe um nexo destrutivo das reputações e dos objetivos mais profundos de se tentar melhorar a saúde como um todo, de fazer a interlocução com as diversas camadas sociais e as organizações que são o sustentáculo do Sistema Único de Saúde. Cabe pouco espaço para o amor e a consideração à dor de todos os que sofrem diuturnamente com um sistema insuficiente, para a maioria das doenças agudas e crônicas deste país. Além disto, também não se considera a importância do Brasil como referência mundial dentro do maior sistema universal de saúde pública do mundo, com números invejáveis de transplantes de medula, de fígado, de rim e até de coração e de pulmão. E que, nesta pandemia, tem a chance de mudar totalmente a evolução da doença, tratando precocemente os pacientes com COVID-19.

Ainda temos tempo de sermos um exemplo de civilidade e de humanidade, onde os objetivos individuais, econômicos ou partidários sejam colocados a serviço de um bem maior, a vida. Para que o mundo acorde um pouco melhor desta pandemia, onde percebamos que o que verdadeiramente importa é invisível aos olhos, de que o respeito à trajetória individual possa se voltar para o bem do todo. Possamos ser sábios e corajosos, para podermos reconstruir um país que necessita do esforço conjunto de todos nós, dentro de uma unidade que faz uma Nação crescer. Que o conhecimento possa ser verdadeiro e nobre, sendo utilizado para a cura do COVID e dos caminhos para o futuro dos nossos descendentes.

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