O desconforto de hoje pode ser a oportunidade no crédito privado – 03/05/2026 – De Grão em Grão

O desconforto de hoje pode ser a oportunidade no crédito privado - 03/05/2026 - De Grão em Grão

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Quando um investimento incomoda, muitos entendem isso como sinal para sair. No crédito privado, porém, muitas vezes ocorre o contrário: o desconforto de hoje pode melhorar o retorno esperado de amanhã.

Em conversa com Alexandre Müller, gestor da JGP, discutimos o momento atual do mercado de crédito brasileiro. A conclusão é clara: o cenário exige seletividade, mas pode estar mais atraente do que a percepção dominante sugere.

Nos últimos meses, parte dos investidores passou a olhar a classe com cautela. Rentabilidades abaixo do CDI e notícias negativas elevaram a sensação de risco. Ainda assim, é importante separar ruído de deterioração estrutural.

Há uma relação histórica entre juros e inadimplência. Taxas elevadas aumentam o custo de capital, encarecem financiamentos, reduzem consumo e esfriam a economia. Com isso, a inadimplência tende a subir, os spreads aumentam e o mercado fica mais seletivo. Quando a Selic começa a cair, esse processo costuma aliviar. E o Brasil já entrou nesse ciclo.

Esse ponto importa porque o mercado se antecipa. Muitas vezes, os preços se ajustam antes que a melhora apareça nos indicadores. Quando o conforto volta, parte da oportunidade já pode ter passado.

Alexandre comparou dois momentos recentes: setembro de 2022 a abril de 2023 e setembro de 2025 a abril de 2026. Ambos marcaram o fim de ciclos de alta de juros, mas o choque do primeiro período foi mais severo. Naquele momento, eventos de crédito provocaram impactos maiores sobre índices e percepção de risco.

Isso ajuda a entender o comportamento de muitos fundos. Quando os spreads abrem, o preço dos títulos cai a curto prazo por marcação a mercado. Mas esse mesmo movimento eleva o retorno contratado para a frente, conhecido como carrego. Em resumo, o desconforto no presente significa rentabilidade melhor no futuro.

Os números históricos reforçam essa leitura. Desde 2017, o benchmark do segmento acumulou retorno próximo de CDI +1,04% ao ano. Entretanto, mais importante que a média foi a distribuição dos resultados: em períodos de spreads mais altos, a probabilidade de superar o CDI nos 12 meses seguintes foi maior do que em momentos de spreads comprimidos. Com spreads acima de 1,82%, o ambiente atual chama a atenção.

Para o investidor, a lição é simples: crédito privado não deve ser avaliado apenas pela rentabilidade recente. O preço de entrada importa. Os melhores momentos surgem justamente quando o sentimento parece pior.

Outro aspecto relevante está na qualidade média dos emissores. Boa parte do mercado high grade segue concentrada em empresas robustas, líderes em seus setores e com capacidade de repassar custos. Concessões e grandes companhias costumam atravessar períodos de juros elevados em condições melhores do que negócios menores e dependentes de crédito bancário.

Isso não significa ausência de risco. Eventos de crédito continuarão existindo, e a escolha de bons gestores segue essencial. Mas hoje o investidor pode receber prêmio maior sem piora equivalente da qualidade média dos emissores.

Para quem já está posicionado, talvez este seja um momento de menos pressa e mais paciência. Para quem ainda não está alocado, vale aproveitar, pois janelas como essa não aparecem com frequência.


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