REPÚBLICA

Pedro Menezes

Publicados

em


O que Anitta nos ensina sobre a economia brasileira| Foto: Reprodução / Facebook

“Só usa a bunda assim agora, Jesus?”, perguntou um seguidor que se dirigia a Anitta, apesar da referência ao Messias. Contrariando expectativas, a funkeira respondeu como professora em escola de negócios, discorrendo sobre a “estratégia da continuidade”:

“É uma das táticas para transformar o produto em algo além da oferta principal – no meu caso, a música. Repare que, desde o Rock in Rio, só usei o mesmo estilo de cintura alta com calcinha pro alto. Este mês, os shorts da coleção já estão sold out [esgotados] em todas as lojas. (…) Se você pesquisar, vai ver várias pessoas se fantasiando dessa forma no carnaval. Assim, pulverizo a [minha] marca de maneira natural e indireta, não ficando 100% dependente do produto principal. A marca continua em alta. Lá na frente, a gente tira proveito dessa criação e partimos pra outra.”

Imagino quão difícil é atuar no setor de Anitta. Hits do verão são imprevisíveis. Não é fácil lançar uma música nova, ano após ano, tendo garantia de que será o grande sucesso do carnaval brasileiro.

Sabendo da sazonalidade do seu negócio, a cantora decidiu vender também uma linha de roupas atreladas à sua imagem. Observou as tendências do momento antes de escolher como se vestiria. Durante centenas de eventos ao longo de vários meses, tomou cuidado para que o figurino sempre se adequasse ao plano de negócios. Deu certo. Anitta não lançou o grande hit do verão e, mesmo assim, segue inabalável como número 1 do pop brasileiro.

Longe de se tratar de um assunto fútil, a estratégia de Anitta para a exposição da própria bunda ilustra o que é a atividade empresarial, o exercício de ganhar dinheiro atendendo às preferências de terceiros. Infelizmente, quando falamos de empresários no Brasil, a geração de valor não é a única prática que nos vem à cabeça. Não deveria ser assim.

Peço que o leitor abstraia julgamentos morais ou estéticos sobre o estilo da cantora e repare a mentalidade com a qual ela trata a própria marca. As virtudes burguesas, nitidamente presentes em Anitta, são essenciais para o desenvolvimento do país.

O que é a atividade empresarial?

O empresário é alguém que se dispõe a administrar fatores de produção para entregar valor econômico aos clientes. Em geral, os fatores de produção são divididos em capital e trabalho.

No caso de Anitta, o trabalho é o dela mesma, dos produtores, maquiadores, dançarinos, construtores dos palcos onde ela faz shows, vendedores de lojas que comercializam suas linhas de roupas, etc. O capital, por sua vez, vai do equipamento de gravação ao figurino utilizado.

A estratégia de Anitta consiste em, a partir dos fatores de produção à disposição, maximizar o valor econômico gerado para o cliente. Além de vender canções, ela usa sua exposição nos palcos para vender também um estilo. Gera dinheiro no curto prazo e mantem a marca em evidência caso as músicas não emplaquem.

Leia Também:  Defesa de Lula fala em violação de provas e pede absolvição em alegação final

Anitta é uma empresária “raiz”. Ela olha para os recursos à sua disposição – voz, corpo, equipe, etc – e pensa em como gerar valor para o público, precavendo-se contra as intempéries do show business.

O que Anitta tem a ver com o desenvolvimento de longo prazo do Brasil?

Em julho do ano passado, escrevi sobre fatores de produção noutra coluna da Gazeta. Segundo o esperado pelos estudiosos do desenvolvimento econômico, países pobres tem mais facilidade para crescer do que países ricos. Daí vem a ideia de economia emergente, aquela que está se aproximando das economias avançadas.

Contrariando expectativas, o Brasil não está emergindo. Desde 1980, o PIB per capita do Brasil cresceu menos que o dos Estados Unidos. Nosso crescimento de longo prazo tem sido muito baixo. O que é surpreendente, dado que, no mesmo período, o Brasil cresceu mais que os Estados Unidos em número e escolaridade dos trabalhadores. Além disso, acumulamos mais capital físico. Os resultados estão documentados em pesquisas como a de Fernandez-Arias, discutida na coluna linkada acima.

Os empresários brasileiros possuem cada vez mais fatores de produção à disposição em relação aos americanos, mas a produção cresce menos. Mas nossa produtividade – a capacidade de gerar mais com menos – tem patinado. Os empreendedores não conseguem maximizar o valor econômico a partir dos insumos disponíveis.

Nosso problema é que a maioria dos empreendedores brasileiros tem dificuldade para fazer o mesmo que Anitta.

Por que é tão difícil criar riqueza no Brasil?

Anitta possui habilidades específicas e muito raras, especialmente na percepção do que o público jovem quer consumir. Essas habilidades são extremamente bem remuneradas no mercado de trabalho deste início de século 21. O assunto é discutido há anos em artigos como o seminal “The Economics of Superstars“, de Sherwin Rosen, publicado na American Economic Review em 1981.

Essa valorização das habilidades de super-estrelas permite que Anitta ganhe muito dinheiro por hora trabalhada. Uma consequência é que ela pode ter uma ideia comercial com a equipe criativa, passar para a assessoria e preocupar-se apenas com a geração de publicidade em torno da ideia.

Assim, Anitta não lida diretamente com fila de cartório, burocracia tributária e processos trabalhistas. Sua alta produtividade na parte criativa do negócio permite um foco exclusivo, com terceirização de outras atividades para gente que entende melhor sobre como produzir roupas e videoclipes.

A maioria dos empreendedores brasileiros não possui o mesmo privilégio setorial, nem um dom excepcionalmente bem remunerado. Eles perdem um tempo valioso lidando com burocracias improdutivas, ao invés de ocupar a própria cabeça com a maximização do valor gerado no seu negócio.

Além de burocrático e repleto de incertezas inexistentes em países mais sérios, o ambiente de negócios brasileiro tem regras irracionais, que prejudicam a alocação dos recursos. Cada produto paga uma alíquota de imposto diferente, cada um tem sua própria regra para importação e, no fim, a maximização da produtividade perde espaço para especificidades da legislação.

Leia Também:  Vitor Hugo deixará liderança do governo na próxima semana

Um exemplo está na engenharia civil, onde a construção com pré-moldados paga imposto como indústria, com o dobro da alíquota cobrada na construção tradicional, no canteiro de obras, que é tributada como serviço. Como resultado, um método de produção possivelmente mais eficiente deixa de ser adotado porque não faz sentido do ponto de vista tributário.

Outro exemplo é a guerra do ICMS. As isenções concedidas por governadores visando a implantação de indústrias em seus estados fazem com que a decisão sobre onde produzir deixe de refletir o valor econômico gerado em cada local.

O Brasil é pródigo na criação de distorções que atrapalham a maximização da produtividade pelo empreendedor. Esses empecilhos dificultam o surgimento de “empresários raiz”, focados na criação de riqueza.

Ainda pior, este cenário faz com que muita gente tente extrair renda a partir regras anti-econômicas, ao invés de gerar valor para o consumidor final. Um dos grandes problemas econômicos do Brasil é este: o empresariado brasileiro está repleto de Odebrecht’s e FIESP’s.

Quando o país do futuro der certo, nossos empresários se parecerão mais com Anitta, com muita disposição para concorrer no exterior e pouca para pedir benesses ao Estado. Inclusive porque, apesar desta coluna tratar de eficiência produtiva, a justiça social é outro assunto de extrema relevância para o Brasil, país que só vai dar certo quando a população nascida na periferia puder empreender com sucesso.

A cabeça de Anitta faz falta na burguesia brasileira. Sim, a cabeça. A bunda dela foi só um pretexto para discutir os grandes desafios do país. Ou, como diria a funkeira, uma estratégia para transformar esta coluna em algo além do produto principal.

+ na Gazeta

Receba nossas notícias

Receba nossas notíciasno celular

As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Siga o Feed RSS

Propaganda
Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POLICIA

POLÍTICA MT

PICANTES

ENTRETENIMENTO

MAIS LIDAS DA SEMANA