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Primos, João Campos e Marília Arraes disputam legado da família e da esquerda no Recife

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João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT) são candidatos a prefeito em Recife| Foto: Reprodução/Facebook

João é filho de Eduardo Campos, que era neto de Miguel Arraes, que era avô de Marília, que é prima-tia de João. É esse enredo familiar que permeia a eleição em Recife, com os candidatos – e parentes – João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT) disputando não só a prefeitura da capital pernambucana, mas também o legado político da família e da esquerda na região.

Marília leva o sobrenome do avô Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco e ex-prefeito de Recife, e uma das maiores figuras políticas do Nordeste. João, por outro lado, não carrega o sobrenome do bisavô, e sim do pai, Eduardo Campos, neto de Arraes e ex-governador pernambucano morto em um acidente aéreo em 2014 durante a corrida presidencial. E, apesar da linhagem política em comum, eles estão em lados opostos na eleição, mesmo que ambos estejam no espectro da esquerda.

O candidato do PSB, segundo pesquisa Ibope divulgada na última quinta-feira (15), lidera a corrida em Recife com 33% das intenções de voto. A representante do PT aparece com 14%, empatada dentro da margem de erro com Mendonça Filho (DEM), que tem 18%, e com Delegada Patrícia (Podemos), que pontuou 13%. No cenário atual, há a possibilidade de Campos e Marília ficarem frente a frente no segundo turno.

PSB busca alavancar João Campos

Segundo o cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Arthur Leandro, o PSB tem feito um esforço, inclusive gerando alguns atritos internos, para alavancar o nome de João Campos. Com 26 anos e mesmo com pouca experiência política — foi eleito deputado federal em 2018 —, ele é visto pela família como o sucessor natural de Eduardo Campos.

A avó de João, tia de Marília e ministra do Tribunal de Contas da União (TCU), Ana Arraes, é uma das principais influências do partido e cogita, inclusive, voltar à carreira política em 2022 para tentar o cargo de governadora de Pernambuco.

“O PSB precisa da capital pernambucana. E nesse sentido o projeto da família Campos é manter o PSB presente com o João Campos”, avalia Leandro. O atual prefeito da cidade, Geraldo Júlio, é do PSB e está no segundo mandato, sem possibilidade de reeleição.

Família rachou em 2016

Do outro lado da família está Marília Arraes. Aos 36 anos, a candidata já foi vereadora pelo Recife entre 2009 e 2019, e é deputada federal desde então. Até 2016 era filiada ao PSB, mas questões internas a fizeram se transferir para o PT. Na carta de despedida aos socialistas, não aliviou nas críticas aos parentes Campos. “Atitudes bajulatórias, principalmente para com a família Campos e os que gravitam em torno dela, tornaram-se praxe entre os integrantes do PSB”, escreveu.

E foi além, citando nominalmente o hoje adversário João Campos. “Quando todos esperavam que houvesse uma disputa e diálogo saudáveis dentro do segmento – que, diga-se de passagem, é a base da formação de quadros partidários – de repente, somos surpreendidos com a notícia de que a JSB/PE [Juventude Socialista Brasileira em Pernambuco] seria comandada por João Campos, filho de Eduardo Campos, que dias antes, em visita à sede do PSB, havia singelamente conversado com os jovens das chapas postulantes ao congresso estadual do partido, dizendo que queria conhecer sobre o funcionamento da Juventude Socialista.”

Apesar de ter o sobrenome do avô, hoje o nome de Eduardo Campos é um ativo mais interessante em Pernambuco. A memória de Miguel Arraes ainda persiste — ele morreu em 2005 —, mas com menor intensidade, especialmente entre o eleitorado mais jovem. À Marília, então, resta apostar na força da esquerda na região.

“O herdeiro da família é João Campos. Marília Arraes, tem o sobrenome que a identifica mais facilmente com a esquerda histórica, e ela recebe o patrimônio e a benção no campo ideológico do PT”, explica Leandro, da UFPE. “Marília se apresenta como liderança da esquerda e o João como filho e herdeiro do estilo Eduardo Campos de governar”, completa.

Nessa cisão familiar, porém, pode estar em jogo o domínio da esquerda em Pernambuco. Ao dividirem os votos no primeiro turno, João Campos e Marília Arraes podem acabar abrindo espaço para o opositor Mendonça Filho.

Na hipótese de o candidato do DEM avançar para o segundo turno, PSB e PT e, consequentemente, os parentes, teriam de fazer um movimento de reaproximação. “Para o PSB é melhor dividir o poder com o nome do PT que tem uma história, mesmo que problemática, do que ver o centro de gravidade do poder migrar para o outro lado do espectro político, que seria o caso de Mendonça Filho”, finaliza Leandro.

Metodologia da pesquisa citada nesta reportagem

Sob encomenda da TV Globo, o Ibope ouviu 1.001 eleitores do Recife entre os dias 9 e 15 de outubro. O levantamento tem nível de confiança de 95%, com margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob a identificação PE-08776/2020.

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