Riqueza não é sinônimo de capacidade – 04/05/2026 – Michael França

Riqueza não é sinônimo de capacidade - 04/05/2026 - Michael França

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Na minha coluna da semana passada, “É rico por mérito ou por herança?”, trouxe uma discussão que costuma acabar gerando reações emocionais em algumas pessoas. E, de certo modo, não é difícil entender o porquê.

No Brasil, para muitos, a figura do herdeiro de grandes fortunas quase sempre foi cercada de uma certa reverência. Havia um respeito quase automático, como se a posição ocupada carregasse, por si só, um sinal de capacidade.

Era como se a riqueza, gerada por gerações anteriores, falasse antes da história individual, como se o lugar onde se está anulasse a pergunta de como se chegou. Nesse arranjo, pouco se questionava a origem das vantagens e muito se idealizava quem as carregava. E, ao atribuir um valor quase automático à posição herdada, o país acabou criando um ambiente em que origem e competência frequentemente se confundem.

Ao naturalizar grandes transmissões de herança, construiu-se um atalho para manutenção da riqueza em algumas dinastias. Devido a isso e a outros fatores, a loteria do nascimento passou a falar mais alto do que as escolhas e esforços individuais. Então, nesse processo, o país deixa de diferenciar quem de fato construiu algo de quem apenas ganhou e preservou o que já estava dado.

Contudo, esse olhar está mudando. Hoje, há mais desconfiança. E, nesse ambiente, até quem de fato constrói algo relevante e realmente acrescenta valor à sociedade acaba sendo colocado sob suspeita.

Esse é um dos custos menos discutidos da desigualdade.

Olhe por esse ângulo… A desigualdade não afeta apenas quem está na base. Ela também embaralha a forma como a sociedade enxerga quem está no topo. Ao reduzir as oportunidades de muitos, ela também amplia o questionamento sobre poucos.

Esse questionamento recai sobre a origem do patrimônio, como também atravessa a autoimagem. Em um ambiente em que as fronteiras entre capacidade e herança ficam menos nítidas, até mesmo aqueles que construíram algo passam a conviver com a dúvida sobre o próprio valor. Aquilo que antes era reconhecido como conquista passa a ser constantemente reinterpretado. E, com o tempo, o reconhecimento externo deixa de ser dado e passa a ser disputado.

Então, no meio desse ruído, trajetórias distintas passam a soar parecidas.

Aqueles que assumiram riscos, contrataram, investiram e trouxeram ganhos reais para a sociedade sabem que empreender não é um caminho tão simples quanto muitos pensam. Envolve consideráveis riscos de fracasso, pressão constante, incerteza sobre o futuro, responsabilidade sobre empregos e decisões difíceis que afetam muitas pessoas.

Contudo, a desigualdade cria esse curioso efeito colateral. Uma vez que há tantos herdeiros que apenas usufruem do trabalho de gerações passadas sem adicionar muito valor, uma parte da classe mais abastada começa a ficar marcada pela mesma impressão. A figura do herdeiro de baixa contribuição contamina a percepção sobre os demais. E, com isso, quem realmente construiu algo vê suas conquistas cada vez mais sendo relativizadas.

O texto é uma homenagem à música “My Favorite Things”, interpretada por John Coltrane.


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