Trump: 3.711 transações com ações em múltiplas estratégias – 23/05/2026 – Economia

Trump: 3.711 transações com ações em múltiplas estratégias - 23/05/2026 - Economia

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A mais recente declaração financeira do presidente Donald Trump atraiu atenção devido à sua escala impressionante: 3.711 operações na Bolsa, quase inteiramente em ações de empresas nos Estados Unidos, incluindo muitas cujas fortunas podem depender de políticas federais.

Em conjunto, constituem uma explosão sem precedentes de atividade no mercado de ações por parte de um presidente em exercício, o que alimentou o fascínio entre as massas de investidores de curto prazo, enquanto críticos alertaram sobre o uso de informações privilegiadas.

Mas uma análise das transações, combinada com entrevistas com especialistas em investimentos, revela negociações tão multifacetadas que não se prestam facilmente a uma interpretação definitiva. Os padrões apresentam estratégias de gestão de portfólio sobrepostas, frequentemente baseadas em índices e grande parte delas provavelmente automatizadas, sendo todas difíceis de desvendar.

Em grande parte, isso está de acordo com a explicação pública da Trump Organization sobre o assunto. Segundo a empresa, os investimentos do presidente são administrados de forma independente por instituições financeiras terceirizadas que controlam todas as decisões de investimento, incluindo alocação de ativos, negociação, rebalanceamento e gestão de portfólio. As negociações são executadas por meio de “portfólios automatizados baseados em modelos e estratégias de indexação direta”, sem qualquer interferência de Trump, sua família ou empresa.

Na terça-feira (19), o vice-presidente JD Vance afirmou que a ideia de que o presidente negociava ações no Salão Oval era “absurda”.

Procurados para comentar o assunto, os funcionários da Casa Branca encaminharam a reportagem de volta à Trump Organization.

“Esse é um problema inerente ao fato de o presidente possuir ações e empresas individuais: as pessoas vão presumir que ele fará investimentos que sabe que serão lucrativos e sobre os quais ele tem influência”, disse Kedric Payne, conselheiro geral do Campaign Legal Center, que apoiou uma legislação que proibiria a negociação de ações por membros do Congresso. “Não deve haver nenhuma aparência de que o presidente esteja usando sua posição para se beneficiar financeiramente.”

Os críticos de Trump rapidamente associaram transações específicas a ações e declarações públicas do presidente. Elizabeth Warren, senadora democrata por Massachusetts, condenou as “negociações de empresas que o governo Trump influenciou com suas próprias políticas”, citando a compra de US$ 1 milhão em ações da Nvidia Corp. antes da aprovação da venda de chips avançados para a China. “O que Trump está fazendo deveria ser ilegal”, afirmou ela em um vídeo em seu site.

AUGE DE NEGOCIAÇÕES NA GUERRA NO IRÃ

O volume de negociações divulgado representa um salto enorme em relação às declarações típicas de Trump, que geralmente mostram transações na casa das centenas. Mais de 2.000 dessas negociações ocorreram em março, quando a guerra no Irã causou um aumento na volatilidade do mercado.

O número de transações e sua abrangência —englobando centenas de títulos e muitas negociações relativamente pequenas— indicam processos automatizados, em vez de um gestor humano realizando milhares de ligações individuais para cada empresa. Algumas ações foram compradas e vendidas mais de uma vez no mesmo dia, o que pode sinalizar que o relatório representa uma agregação de mais de uma conta. Especialistas também afirmaram ter observado evidências de venda de ações após um desempenho ruim, o que sugere negociações relacionadas a impostos.

“A compensação de perdas fiscais é provavelmente a estratégia de portfólio mais comum que vemos hoje entre investidores de alto e altíssimo patrimônio”, disse Samir Vasavada, cofundador da Vise, uma plataforma de investimentos com cerca de US$ 80 bilhões (R$ 401 bilhões) em ativos que oferece indexação personalizada. “Acreditamos que a atividade de negociação no formulário 278-T do presidente Trump seja um exemplo provável de como isso se apresenta em grande escala.”

Alguns aspectos dos dados eram consistentes com a indexação direta. Isso ocorre quando um investidor possui as ações individuais que compõem um índice, em vez de ações de um fundo que faz o mesmo, o que lhe permite realizar perdas vendendo as ações com pior desempenho, enquanto ainda acompanha, de forma geral, um índice de referência.

Muitas das negociações ocorreram em dias em que os principais índices foram redefinidos. O segundo dia de maior volume de negociações foi 23 de março, coincidindo com um rebalanceamento dos índices S&P 500, 600, 400 e 100, bem como com a inclusão de novas ações em alguns índices de referência do FTSE Russell.

Vasavada afirmou que os nomes individuais no processo apresentam uma sobreposição de aproximadamente 90% com os componentes do índice Russell 3000.

Tudo isso pode ajudar a explicar parte da concentração das negociações, não apenas em torno do rebalanceamento do índice, mas também em dias de queda do mercado que criam oportunidades para realizar perdas. O documento mostra 155 vendas em 12 de fevereiro e 124 vendas em 18 de março, dias em que o S&P 500 caiu mais de 1%.

“Quando você mantém centenas ou milhares de posições individuais e o sistema está procurando perdas para aproveitar todos os dias, você acaba com muitas negociações”, disse Vasavada.

Os dados divulgados foram limitados, o que dificulta aos analistas chegar a conclusões definitivas. A divulgação apresenta apenas faixas de valores gerais, em vez de tamanhos de negociação precisos, não mostra lucro ou prejuízo em nenhuma posição e não oferece uma discriminação da atividade por conta.

No entanto, alguns padrões se destacam. Por exemplo, tanto janeiro quanto fevereiro mostram um pico nas negociações no dia anterior à divulgação dos dados de inflação dos EUA, enquanto a atividade em março foi elevada tanto no dia da divulgação quanto no dia seguinte.

Essas alterações podem ser ajustes de portfólio independentes, baseados no calendário, ou ações de um fundo macroeconômico ou sensível às taxas de juros. Um aumento na atividade antes da reunião do Federal Reserve em março corrobora a última teoria.

Entretanto, das 3.711 negociações relatadas, a maioria envolvendo ações americanas, 625 foram classificadas como “não solicitadas” —uma classificação que se refere a transações não iniciadas pela corretora.

Quase todas essas operações ocorreram em março, com um aumento repentino no primeiro dia de negociação após o ataque dos EUA ao Irã. Foram predominantemente compras e parecem mais pontuais do que as negociações sistemáticas apresentadas em outras partes do relatório.

ANTECESSORES NA CASA BRANCA USAVAM ‘BLIND TRUST’

O que os dados mostram com certeza é uma presença incomumente ativa no mercado financeiro associada a um presidente em exercício, que pode alterar as perspectivas para empresas, setores ou todo o mercado com políticas ou declarações. Os antecessores de Trump frequentemente utilizavam fundos fiduciários cegos (“blind trust”) ou fundos mútuos amplamente diversificados durante seus mandatos.

“Se você trabalha com previsões de contratos, por exemplo, pode haver informações importantes contidas nesses tipos de divulgações”, disse William Cassidy, professor assistente de finanças da Universidade de Washington, que estuda como as forças políticas impactam os mercados financeiros.

Diferentemente de membros do Congresso, que também podem estar envolvidos em políticas que afetam empresas de capital aberto, Trump é incomum, porque costuma comentar diretamente sobre empresas individuais, disse Barney Chen, candidato a doutorado na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que foi coautor de um artigo sobre negociações realizadas pelo Congresso.

Por exemplo, o documento mostra uma compra não solicitada de ações da Apple Inc. entre US$ 1 milhão (R$ 5 milhões) e US$ 5 milhões (R$ 25 milhões) no início de março, cerca de uma semana antes de Trump elogiar publicamente o CEO da empresa, Tim Cook.

Bruce Sacerdote, professor de Dartmouth e coautor do artigo com Chen, afirmou que o volume de transações ligadas a Trump era impressionante. Ele não encontrou, no entanto, evidências claras de resultados acima da média do mercado.

“É incrível a quantidade de negociações que estão acontecendo”, disse ele. “Não estamos encontrando evidências fortes de que ele esteja superando o mercado, mesmo em casos em que houve algumas mudanças de política ou tweets.”

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