Nem sempre decisões financeiras ruins são fruto apenas da falta de informação. Em muitos casos, elas estão ligadas a comportamentos que passam despercebidos, mas influenciam diretamente o uso do dinheiro.
Identificar essas tendências é essencial para evitar prejuízos e construir uma relação mais consciente com as finanças, das compras do dia a dia às decisões de maior impacto sobre o orçamento, explicam especialistas.
Para Danielle Haydée Salvatore, diretora de operações do IBS (Instituto Brasil Solidário), ONG que oferece educação financeira a crianças e adolescentes, ensinar a gerir o próprio dinheiro é o primeiro passo para escolhas econômicas mais eficientes ao longo da vida.
“Educação financeira começa pelo comportamento, não por técnicas complexas. As pessoas costumam associá-la a investimentos, produtos bancários ou à bolsa de valores, mas isso vem depois. Tudo parte de escolhas simples do dia a dia”, diz ela.
Esse conhecimento engloba a compreensão dos vieses comportamentais —atalhos do cérebro para tomar decisões rápidas, mas que podem comprometer escolhas racionais. No contexto financeiro, esses padrões psicológicos, muitas vezes inconscientes, distorcem as decisões, levando a ações impulsivas que prejudicam o planejamento e o controle financeiro.
Conheça alguns desses fatores psicológicos a seguir.
Ancoragem
O viés de ancoragem ocorre quando o indivíduo se prende excessivamente à primeira informação que recebe. Por exemplo, ao se deparar com um produto em promoção, o consumidor pode considerar a oferta vantajosa apenas porque o preço inicial era mais alto, sem verificar se aquele valor corresponde ao praticado no mercado ou se há alternativas melhores.
Esse comportamento se torna especialmente problemático em contextos como a Black Friday. No Brasil, pesquisas indicam que categorias muito visadas, como celulares, lavadoras, geladeiras e aparelhos de televisão, registram altas de preços nas semanas que antecedem o evento, com lojas anunciando falsos descontos na data. Esse tipo de prática, conhecida como “maquiagem de desconto”, representou cerca de 10% das 1.364 reclamações registradas pelo Procon-SP no início da Black Friday em 2025.
“A propaganda e o marketing estimulam o consumo do que não é necessário, criando um desequilíbrio entre o que a pessoa quer e o que precisa. Isso contribui para a falta de planejamento no dia a dia, nas despesas e também no futuro, dificultando a reserva de recursos para emergências e imprevistos”, afirma Haydée.
Aversão à perda
A tendência acontece quando o medo de experimentar perdas é mais forte do que a satisfação com ganhos equivalentes, levando à hesitação diante de decisões que poderiam ser vantajosas.
Por exemplo, um investidor pode manter ações em declínio para evitar vendê-las por um valor inferior ao da compra inicial. O comportamento de adiar a decisão, mesmo diante de alternativas mais promissoras no mercado, pode acabar ampliando as perdas ao longo do tempo.
Confirmação
Outro fator psicológico que afeta a forma de lidar com o dinheiro é o viés de confirmação —a tendência de buscar e valorizar apenas informações que reforçam crenças prévias, ignorando dados que as contradizem.
Por exemplo, alguém interessado em investir em ações de uma empresa pode analisar relatórios com opiniões positivas e negativas, mas focar apenas nos aspectos favoráveis, por já ter uma visão positiva da organização. Desconsiderar os sinais de alerta aumenta o risco de tomar uma decisão mal embasada e que leve a perdas futuras.
O mesmo raciocínio vale para o consumo. Quando se deseja muito um produto, é comum buscar apenas avaliações positivas e passar longe das críticas sobre qualidade ou custo-benefício.
Excesso de confiança
Confiar demais nas próprias habilidades pode induzir a decisões precipitadas, muitas vezes guiadas pela emoção e por uma sensação ilusória de controle.
Esse excesso de confiança é comum principalmente entre iniciantes em determinada área, que, ao terem contato com conhecimentos básicos, passam a acreditar que dominam o tema e conseguem prever resultados. A falta de experiência faz com que a complexidade do assunto seja subestimada, aumentando o risco de erros.
Na prática, isso pode levar, por exemplo, um investidor a tomar decisões baseadas na intuição, ignorando análises mais aprofundadas ou sinais de alerta do mercado.
“Fomo”
A sigla “fomo” (do inglês “fear of missing out”, ou medo de ficar de fora) descreve a ansiedade de perder oportunidades, experiências ou vantagens. Esse viés leva a decisões apressadas, guiadas mais pelo receio de ficar para trás do que por uma avaliação cuidadosa dos custos e benefícios.
Esse comportamento é intensificado pelas redes sociais, conforme destaca Haydée. “As redes vêm propagando a ideia de que o sucesso está ligado à posse e aos bens materiais. Isso infelizmente impacta as pessoas, principalmente as crianças, fazendo com que elas achem que o supérfluo é a chave do sucesso e da felicidade.”
Mentalidade de rebanho
O viés da mentalidade de rebanho leva à repetição do comportamento da maioria, sem uma análise mais cuidadosa. Isso ocorre porque surge a percepção de que os outros dominam informações ou conhecimentos que não se tem, o que enfraquece o senso crítico na tomada de decisão.
No mercado financeiro, esse padrão fica evidente. Ao ver uma ação em alta, muitos investidores passam a comprá-la apenas para seguir o movimento, o que reforça a valorização. Em momentos de queda, ocorre o oposto: a venda em massa se espalha rapidamente, criando um efeito em cadeia. Assim, o comportamento coletivo pode intensificar oscilações que nem sempre refletem os fundamentos econômicos reais.
No dia a dia, decisões de consumo também são influenciadas pelo comportamento do grupo: trocar de celular, carro ou roupas com frequência apenas porque isso virou tendência ou está sendo exibido nas redes sociais é um exemplo claro. Nesses casos, a escolha deixa de ser guiada por necessidade e passa a refletir o desejo de acompanhar os outros.
A Causa do Ano ‘Educação Financeira Transforma’ conta com o apoio do IBS (Instituto Brasil Solidário).









