Transição energética: a inovação que ainda não temos – 27/05/2026 – Mauricio Portugal Ribeiro

Transição energética: a inovação que ainda não temos - 27/05/2026 - Mauricio Portugal Ribeiro

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A transição energética é, antes de tudo, um problema de inovação. Não existem meios técnicos para realizá-la na escala e no prazo que o desafio climático exige.

Vaclav Smil tem repetido um diagnóstico desconfortável: a civilização moderna assenta-se sobre quatro pilares materiais —cimento, aço, plásticos e amônia— produzidos hoje em escala global à base de combustíveis fósseis. Sem amônia obtida do gás natural, metade da humanidade não seria alimentada; sem coque de carvão, não haveria aço primário; sem fornos a hidrocarbonetos, não haveria cimento; sem petroquímica, não haveria plásticos. A densidade energética das baterias atuais é fração da do diesel, sem o qual ainda não há transporte pesado de longa distância. A captura e o armazenamento industrial de carbono em operação no mundo somam pouco mais de 0,1% das emissões anuais. Como Smil tem insistido, faltam ao mundo, hoje, alternativas de larga escala que possam ser implantadas de imediato. As transições energéticas anteriores levaram gerações; estamos no início, e não no meio da próxima.

Diante de algo tão necessário e tão demorado, a reação típica do mundo contemporâneo é institucionalizar a inovação. Criam-se discursos, ritos, departamentos, incubadoras, laboratórios, diretorias e métricas. A aposta é clara: se for organizada, a inovação acontecerá. O problema é que a inovação, como a curiosidade ou a admiração, resiste a esse tipo de captura. É frequentemente iconoclasta, desconfortável, avessa a ritos. Não por acaso, muitos inovadores recusaram mecanismos de consagração institucional, como fez Jean-Paul Sartre ao rejeitar o Nobel.

Os exemplos mais relevantes para o desafio energético confirmam o padrão. As baterias de níquel-hidreto metálico que viabilizaram o veículo híbrido, ao lado de painéis solares de filme fino e de tecnologias de armazenamento de hidrogênio, foram desenvolvidas por Stan Ovshinsky —maquinista autodidata, sem diploma universitário— em laboratório próprio, à margem dos circuitos acadêmicos. A captura direta de CO₂ atmosférico, hoje peça central dos cenários de neutralidade líquida, foi proposta em 1999 por Klaus Lackner, então físico em Los Alamos, e tratada por mais de uma década como inviável pela comunidade técnica. A célula a combustível PEM, hoje base dos ônibus, caminhões e trens a hidrogênio, foi industrializada por Geoffrey Ballard, que em 1983 redirecionou sua empresa quando a indústria automotiva tratava o hidrogênio veicular como fantasia.

Instituições são meios de transmissão, reificações das ideias e consensos das gerações anteriores que reduzem complexidade e tornam possível sustentar transformações que ocuparão várias gerações. São ponte entre passado e futuro, mas exigem permanente ressignificação. O problema é que a forma institucional muitas vezes sobrevive enquanto a substância se esvazia.

De Thorstein Veblen a John W. Meyer e Brian Rowan, repetem-se diagnósticos sobre ritos, títulos e processos que se autonomizam e se desacoplam do conteúdo. A academia, institucionalizada com enorme sucesso como sistema impessoal de produção do saber, frequentemente vê seus rituais operarem como formalidades vazias. Curiosidade genuína e busca obstinada por novas respostas são de difícil institucionalização.

Há casos em que práticas se transformam, mas preservam seu núcleo —como observou Foucault sobre a confissão religiosa, ressignificada em terapias e clínicas psiquiátricas—, ou em que o retorno à essência surge em paralelo à institucionalização, como nos movimentos que, em várias artes marciais, reagem à transformação da prática em sistemas de pontos para campeonato ou em modalidades olímpicas.

Infraestrutura precisa de inovação, e inovação precisa de instituições —mas também de algo que elas não sabem produzir bem: relações formativas profundas. Mentorias contemporâneas resolvem problemas pontuais e orientam carreiras. Não formam pessoas. Inovação exige mais: hábitos, disposições, ethos. Como ensinava Aristóteles na ética a Nicômaco, a excelência se forma pelo hábito, não pelo ato isolado.

Talvez seja hora de recuperar algo próximo à relação mestre-discípulo descrita por Werner Jaeger em Paideia: formação por convivência e exemplo, que não separa conhecimento, caráter e modo de vida, única, talvez, capaz de cultivar os hábitos de rigor, paciência e ousadia sem os quais não se dorme com problemas até enxergar saídas que ninguém havia formulado.

A transição energética, a maior reorganização material desde a Revolução Industrial, não será resolvida em comitês de governança nem em indicadores de desempenho trimestrais. Será obra de pessoas formadas nessa convivência e de instituições capazes de uma operação que poucas dominam: reconhecer a inovação onde ela nasce —quase sempre fora delas— e oferecer-lhe abrigo, capital paciente e arcabouço contratual para escalar, sem no caminho domesticá-la.

Eis um dos grandes desafios civilizacionais do nosso tempo: formar pessoas capazes de enxergar o que ninguém formulou e construir as instituições raras que saibam abrigá-las sem domesticá-las.


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