O presidente dos EUA, Donald Trump, arrisca desencadear uma crise financeira, alertou o BCE (Banco Central Europeu), citando a guerra no Irã, as incertezas das políticas comerciais norte-americanas e o recuo da cooperação internacional.
O risco de um choque geopolítico provocar uma crise financeira está se intensificando. O BCE atribuiu isso a avaliações de ativos cada vez mais “esticadas” e dúvidas sobre a sustentabilidade dos altos níveis de dívida pública, segundo sua revisão semestral de estabilidade financeira.
O conflito no Oriente Médio, que começou quando os EUA e Israel lançaram ataques ao Irã em 28 de fevereiro, está colocando a resiliência do sistema financeiro “à prova”, escreveu o vice-presidente do BCE, Luis de Guindos, em sua última revisão antes de deixar o cargo no final de maio.
“Embora o impacto total da guerra ainda não esteja claro nesta fase, as repercussões para a economia global e a estabilidade financeira estão se tornando mais graves quanto mais ela durar”, disse ele. O Irã afirmou que responderia aos ataques aéreos dos EUA na segunda-feira (25), enquanto mediadores continuavam as negociações para estender um acordo de cessar-fogo.
Além das consequências econômicas da guerra no Irã, que elevam a inflação e prejudicam o crescimento, o BCE apontou outros fatores de risco. A volatilidade nas políticas comerciais dos EUA e os temores de que Trump esteja afastando Washington de seu tradicional papel de liderança global agravam as ameaças ao sistema financeiro.
“A incerteza em torno do compromisso do governo dos EUA com a cooperação multilateral também está aumentando o risco de que choques políticos perturbem a ordem internacional e estimulem a fragmentação econômica e regulatória ao redor do mundo”, afirmou o banco central da zona do euro.
“Anúncios de tarifas, pausas e reversões tornaram-se uma característica estrutural do ambiente global”, acrescentou.
O BCE disse estar cada vez mais preocupado com a ameaça de ataques cibernéticos e outras formas de guerra híbrida, como sabotagem.
“Ameaças híbridas estão aumentando os riscos enfrentados pelo ambiente operacional, especialmente se direcionadas a infraestruturas críticas”, afirmou, acrescentando que novos modelos de IA aumentam o perigo de ataques cibernéticos causarem “perturbações graves e generalizadas”.
O Financial Times revelou na semana passada que o banco central havia convocado credores da zona do euro para uma reunião na terça-feira para discutir as vulnerabilidades de TI expostas pelos mais recentes modelos de IA, como o Claude Mythos Preview da Anthropic.
Folha Mercado
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Um grande banco americano que tem acesso ao Mythos fez uma apresentação sobre ele na reunião de terça-feira para bancos sediados na zona do euro, que tiveram acesso negado ao novo modelo de IA da Anthropic, disse de Guindos a repórteres na quarta-feira. “Os bancos precisam investir muito mais em segurança cibernética, não apenas os grandes bancos, mas os pequenos também podem ser sistêmicos aqui”, afirmou.
O BCE também está preocupado com a transferência de grandes volumes de empréstimos dos bancos para áreas mais opacas das finanças, como crédito privado, e com a probabilidade de que mais tomadores de empréstimos tenham dificuldades para pagar suas dívidas se as tensões geopolíticas continuarem elevando os custos de financiamento.
“Uma interrupção mais persistente do fornecimento de energia e um crescimento notavelmente mais fraco poderiam desencadear uma reavaliação do risco soberano pelos participantes do mercado”, disse o BCE na revisão. “A presença crescente de investidores mais sensíveis a preços, como fundos de hedge, nos mercados de títulos soberanos da zona do euro poderia amplificar qualquer precificação abrupta do risco soberano.”
Os investidores pareciam otimistas demais diante desses riscos, disse o BCE. Ele apontou que as avaliações do mercado de ações estavam “esticadas pelos padrões históricos”, enquanto os prêmios de risco de títulos —o rendimento extra que os investidores exigem para emprestar a tomadores mais arriscado — estavam “comprimidos globalmente”.
“Consequentemente, há um risco considerável de que o sentimento do mercado financeiro possa se deteriorar, já que os riscos negativos relacionados a desenvolvimentos geopolíticos, fiscais e macrofinanceiros parecem subestimados”, disse o BCE.
De Guindos acrescentou que os mercados estavam contando com uma “situação muito benigna” emergindo do conflito no Oriente Médio, que evitasse um aumento sustentado da inflação ou problemas no crédito privado e no mercado de títulos soberanos.
“Em combinação com a complacência, isso poderia dar origem a uma mudança nos mercados”, disse ele, descrevendo o clima otimista entre os investidores como uma “situação agridoce”.









