O Brasil na era do token – 06/06/2026 – Roberto Campos Neto

O Brasil na era do token - 06/06/2026 - Roberto Campos Neto

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A Revolução Industrial foi movida a carvão. O século 20 rodou a petróleo. O recurso definidor do século 21 é algo muito menos visível: o token, a menor unidade de linguagem consumida cada vez que um modelo de inteligência artificial pensa, escreve ou decide. Estamos entrando em uma nova era, e suas restrições são surpreendentemente antigas: energia, minerais e geografia.

Em minha última coluna abordei os efeitos da IA sobre o mercado de trabalho e o potencial de ganhos de eficiência para o setor público. A evidência não é especulativa: a IA tem sido um dos motores da economia, e as empresas estão incorporando crescentemente a tecnologia em seus processos.

A proporção de empresas que usam IA saltou de 20% em 2017 para 88% em 2025, de acordo com a McKinsey. A adoção de IA não está no horizonte; ela já remodela a economia global em alta velocidade.

Nos últimos meses, observamos uma grande transformação. O que chamamos de text coding —a capacidade de produzir programas e projetos por meio de linguagem simples— democratizou a programação. Pessoas sem formação técnica profunda agora entregam projetos com eficiência próxima à de desenvolvedores experientes.

As empresas correm para se tornar AI First: organizações verdadeiramente lideradas pela inteligência artificial. O que começou como automatização de fluxos de trabalho evolui rapidamente para um novo patamar: a IA como geradora de ideias, não apenas executora de tarefas. Quem acompanha esse movimento de perto já vê isso claramente no dia a dia.

Uma mudança cultural revela a profundidade dessa transformação. Em Palo Alto, quando se contrata alguém, a negociação não gira mais apenas em torno do bônus ou do pacote de benefícios. O candidato pergunta quantos tokens poderá gastar. A produtividade passou a depender diretamente do volume de tokens disponíveis.

O token tornou-se a nova unidade monetária da inteligência, o equivalente ao barril de petróleo do século passado. As entidades capazes de produzi-lo de forma barata e em escala dominarão o comércio global, a ciência, a defesa e a economia. Empresas e países que não compreenderem essa lógica a tempo pagarão o preço da dependência.

Diante desse avanço e do consumo explosivo de tokens, há duas grandes barreiras que definirão o futuro: energia e poder computacional. O consumo global de eletricidade por data centers chegou a 415 TWh em 2024. A IEA (Agência Internacional de Energia) projeta que alcançará 945 TWh em 2030.

Nos Estados Unidos, data centers de IA podem demandar 123 gigawatts de capacidade até 2035, cerca de 30 vezes mais do que em 2024. As cinco maiores empresas de tecnologia destinaram mais de US$ 400 bilhões em investimentos de capital em 2025, alta de 72% em um ano, com previsão de crescimento adicional expressivo em 2026.

Jensen Huang, da Nvidia, foi categórico: “A receita de IA é limitada pela energia”. O gargalo não é mais o código. São os quilowatts.

Além da energia, os minerais completam o binômio por trás dessa corrida. Para produzir semicondutores — o substrato físico da IA — são necessários elementos de terras raras. A China controla hoje cerca de 60% da mineração mundial e 90% da capacidade global de refino.

Em outubro de 2025, Pequim impôs controles de exportação sobre minerais críticos, provocando aumento de preços na Europa e cortes de produção. A revolução da IA colidiu com um ponto de estrangulamento geopolítico de fornecedor único. A resposta foi imediata: os EUA formaram uma coalizão de nações para garantir cadeias de suprimento de minerais críticos. A corrida por recursos que definiu os impérios coloniais retornou, desta vez impulsionada pelo silício, não pelo vapor. O petróleo continua importante, mas saímos do debate exclusivo sobre ele para tratar de energia e minerais como um todo.

Nesse novo mapa geopolítico, o Brasil ocupa uma posição que poucos países no mundo possuem. O país detém a segunda maior reserva mundial de minerais de terras raras, estimada em 21 milhões de toneladas, atrás apenas da China. Fornece cerca de 90% da demanda global de nióbio, mineral crítico para supercondutores, baterias avançadas e ligas metálicas usadas em infraestrutura de IA.

E possui o outro ingrediente essencial: energia limpa, abundante e barata. Quase 90% da matriz elétrica brasileira provêm de fontes renováveis (como hidro, eólica, solar e biomassa), ante uma média global de aproximadamente 32%, de acordo com a IEA. Em um mundo onde data centers consomem tanta eletricidade quanto nações de porte médio, isso não é detalhe. É vantagem competitiva decisiva.

O mercado já percebeu e começa a precificar esse reposicionamento. A Microsoft anunciou US$ 2,7 bilhões em expansão de data centers no Brasil. A Amazon Web Services (AWS) planeja US$ 1,8 bilhão. Esse é um fluxo de capital que se traduz em empregos, renda e receita fiscal.

Os ativos energéticos e minerais brasileiros estão se valorizando. O país tem posição estratégica super-relevante. O Brasil está diante de uma nova rodada de vantagens comparativas —desta vez não baseadas em commodities agrícolas, mas em energia limpa e minerais estratégicos que o mundo desenvolvido precisa e não tem.

A oportunidade é real, mas dotações naturais não se convertem automaticamente em prosperidade. A história econômica é pródiga em exemplos.

Aproveitá-la exige postura estratégica e pragmática: fundamentos econômicos robustos que atraiam capital de longo prazo, segurança jurídica que reduza o prêmio de risco e planejamento energético que converta abundância renovável em vantagem competitiva sustentável.

O Brasil pode se tornar não apenas exportador dos insumos da inteligência artificial, mas destino preferencial de investimentos em uma das indústrias mais dinâmicas do século. A era do token começou. A questão não é se o Brasil fará parte dela —é como participaremos e se seremos também atores da economia inteligente. A resposta definirá o nosso futuro.


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