Entenda como Brasil pode ter sobretaxa de 37,5% nos EUA – 03/06/2026 – Economia

Trabalho forçado: EUA propõem nova tarifa contra Brasil - 03/06/2026 - Economia

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O governo Trump usou uma investigação sobre trabalho forçado para elevar sua tarifa global de 10% para 12,5% e colocar o comércio com a China no alvo, segundo especialistas ouvidos pela Folha. A medida foi detalhada em um relatório publicado na madrugada de terça-feira (2).

Caso os EUA confirmem a medida e também a tarifa de 25% por supostas práticas desleais do Brasil, incluindo o Pix e a pirataria na rua 25 de Março na capital paulista, parte dos produtores brasileiros será alvo de uma sobretaxa total de 37,5%.

O escritório do representante de Comércio dos EUA (USTR, em inglês) colocou como exceções para as taxas uma lista de produtos com potencial de pressionar ainda mais a inflação dos americanos. Segundo estimativa do governo brasileiro, 21,5% das exportações aos EUA seriam afetadas pelas taxas.

Entenda em dez pontos como funcionará a nova tarifa e como isso afeta o Brasil.

COMO FICAM AS TARIFAS SOBRE O BRASIL

O Brasil já pode ser alvo de uma tarifa de 25% devido à investigação dos EUA sobre suposta concorrência desleal das empresas brasileiras. A decisão sobre aplicação ou não cabe ao presidente dos EUA, Donald Trump.

Como os EUA praticamente repetiram nas duas apurações do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) a lista de exceções, que inclui itens com potencial inflacionário sobre a economia americana, as sobretaxas de 12,5% e 25% se aplicariam e se somariam na mesma gama de produtos. O total seria de 37,5%.

NOVA TARIFA SUBSTITUI SOBRETAXA GLOBAL

A alíquota de 12,5% substituiria a atual sobretaxa de 10% aplicada a todos os parceiros comerciais dos EUA. A investigação contra trabalho forçado abordou 60 países que representam 99% do comércio externo americano e encontrou falhas em todo o grupo.

Após a Suprema Corte americana declarar o primeiro tarifaço de Trump inconstitucional, o presidente dos EUA recorreu à seção 122 da Lei de Comércio de 1974 dos Estados Unidos para instituir uma nova taxa global de 10%. Essa legislação autoriza o presidente a impor tarifas temporárias sobre bens importados para lidar com balanços de pagamentos e emergências financeiras.

O QUE FICOU FORA DA SOBRETAXA?

Na investigação contra o Brasil, o USTR poupou produtos considerados estratégicos para a economia dos Estados Unidos ou que poderiam provocar aumento de preços e problemas de abastecimento caso fossem sobretaxados. Os itens também aparecem como exceções na investigação contra trabalho forçado.

Entre os itens que ficaram fora da tarifa estão:

  • Café

  • Carne bovina

  • Suco de laranja

  • Frutas tropicais, como manga, banana, abacaxi e mamão

  • Medicamentos e vacinas

  • Petróleo, gás natural e diversos minérios

  • Componentes e equipamentos da indústria aeronáutica

As maiores preocupações, porém, estão concentradas nos produtos industrializados que não aparecem na lista de exceções.

Segundo estimativas de economistas e entidades empresariais, os segmentos potencialmente mais afetados incluem máquinas e equipamentos, produtos elétricos, madeira e manufaturados de madeira, móveis, parte da indústria de transformação, além de têxteis, confecções e calçados.

Para esses setores, a tarifa pode representar perda de competitividade em relação a concorrentes de outros países e dificultar a ampliação das exportações para o mercado americano.

QUAL O ESCOPO DA INVESTIGAÇÃO DOS EUA

Os EUA investigaram se 60 países conseguiram impor ou aplicar de forma eficaz a proibição de importar bens produzidos com trabalho forçado. O USTR considerou que todos, que representam 99,4% do comércio externo americano, falharam em atingir os padrões necessários.

O QUE FOI INVESTIGADO

O escritório do representante de comércio dos EUA analisou estatísticas oficiais de comércio entre 2024 e 2026 para mapear o fluxo de insumos suspeitos.

Nesse trabalho, foi considerado, por exemplo, se o Brasil compra alumínio bruto de regiões chinesas acusadas de trabalho forçado e depois exporta autopeças ou aviões para os EUA. Daí o critério de contaminação da cadeia é acionado.

QUEM SERIA PUNIDO

O Brasil não tem uma proibição legal explícita contra a importação de produtos feitos com trabalho escravo, junto com China, Japão, Nova Zelândia, Suíça e Reino Unido. No total, são 54 países nessa lista.

Os outros seis países investigados não tiveram capacidade real de fiscalização em suas alfândegas. São eles: Canadá, Equador, União Europeia, Indonésia, México e Paquistão.

O QUE FOI DITO SOBRE O BRASIL

A investigação aponta que o Brasil importa insumos críticos de países que usam trabalho forçado, como a China, e possui setores que exportam diretamente para o mercado americano.

QUAL A JUSTIFICATIVA DOS EUA

O escritório, comandado pelo embaixador Jamieson Greer, afirma que a leniência com essa prática se tornou um fardo sobre o comércio norte-americano e recomendou a aplicação de tarifas compensatórias.

Greer chamou a prática de dumping social: a redução artificial dos custos de produção por meio do trabalho forçado, gerando lucros fora das condições de mercado e criando uma concorrência desleal contra quem segue as regras —os produtores americanos no caso.

Segundo o embaixador, os EUA proíbem o trabalho escravo de entrar nos EUA. “Se os nossos parceiros comerciais não proíbem isso nas fronteiras deles, o produto contaminado por dumping social entra no mercado deles, reduz os custos das empresas locais e cria uma concorrência desleal contra os trabalhadores americanos.”

CHINA CONTAMINA CADEIA GLOBAL DE PRODUÇÃO, DIZ EUA

O documento do USTR dedica seções inteiras para ilustrar como os insumos da China entram na cadeia global e driblam a proibição americana por meio de outros países.

O relatório aponta o polissilício (matéria-prima usada em painéis solares) vindo da China como o exemplo mais crítico de contaminação de cadeia. Indústrias de diversos países compram o insumo barato da China, montam os painéis solares e tentam exportar o produto final para os EUA.

O mesmo valeria no setor têxtil. O relatório cita dados independentes apontando que mais de 200 regiões globais importaram algodão ou misturas de algodão da China, com destaque para grandes polos têxteis como Bangladesh, Japão, Filipinas e Vietnã.

Como a vasta maioria do algodão chinês vem da região de Xinjiang (alvo das denúncias de trabalho forçado), o relatório conclui ser altamente provável que as roupas manufaturadas nesses terceiros países e enviadas aos mercados globais estejam contaminadas com trabalho escravo.

Veja a lista dos países:

  1. Argélia
  2. Angola
  3. Argentina
  4. Austrália
  5. Bahamas
  6. Bahrein
  7. Bangladesh
  8. Brasil
  9. Camboja
  10. Canadá
  11. Chile
  12. China
  13. Colômbia
  14. Costa Rica
  15. República Dominicana
  16. Equador
  17. Egito
  18. El Salvador
  19. União Europeia
  20. Guatemala
  21. Guiana
  22. Honduras
  23. Hong Kong, China
  24. Índia
  25. Indonésia
  26. Iraque
  27. Israel
  28. Japão
  29. Jordânia
  30. Cazaquistão
  31. Kuwait
  32. Líbia
  33. Malásia
  34. México
  35. Marrocos
  36. Nova Zelândia
  37. Nicarágua
  38. Nigéria
  39. Noruega
  40. Omã
  41. Paquistão
  42. Peru
  43. Filipinas
  44. Catar
  45. Rússia
  46. Arábia Saudita
  47. Singapura
  48. África do Sul
  49. Coreia do Sul
  50. Sri Lanka
  51. Suíça
  52. Taiwan
  53. Tailândia
  54. Trinidad e Tobago
  55. Turquia
  56. Emirados Árabes Unidos
  57. Reino Unido
  58. Uruguai
  59. Venezuela
  60. Vietnã

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