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A guerra no Irã e o abalo no mercado global do petróleo têm aumentado os aportes financeiros em energias renováveis e na transição para uma economia menos intensiva em carbono, ainda que o motivo não seja exatamente o combate às mudanças climáticas.

É o que diz Marina Cançado, fundadora da Converge Capital, empresa de consultoria focada em negócios sustentáveis. Ela é uma das organizadoras do Brazil Climate Investment Week, que acontece nesta semana em São Paulo e deve atrair cerca de 350 executivos e investidores.

“O contexto geopolítico está acelerando os investimentos, porque o clima deixou de ser apenas sobre a nossa sobrevivência neste planeta e virou algo totalmente relacionado com a geopolítica. Virou uma questão de ter uma matriz energética mais diversificada, não ficar muito dependente de petróleo”, afirma à Folha.

Um relatório da organização internacional Zero Carbon Analytics reforça essa visão: após o início do conflito no Oriente Médio, os fundos negociados em Bolsa (ETFs, na sigla em inglês) de energia limpa superam os tradicionais de energia nos Estados Unidos e atraíram US$ 3 bilhões (cerca de R$ 15,2 bilhões) em abril, o maior fluxo mensal desde janeiro de 2021.

Cançado diz que a corrida por investimentos em minerais críticos também é um reflexo da guerra. “Podemos ter nossos problemas internos de segurança pública, mas a paz prevalece na América do Sul, e isso faz a região ser vista como um parceiro confiável para as cadeias de valor.”

A Capital for Climate, empresa de capital limitado que busca acelerar investimentos de impacto, calcula que o Brasil tenha anunciado mais de US$ 3,9 bilhões (R$ 19,7 bilhões) em soluções baseadas na natureza desde 2022. A projeção é de US$ 10,4 bilhões (R$ 52,6 bilhões) até 2027 –acima da meta, que era identificar ao menos US$ 5 bilhões (R$ 25,3 bilhões).

“Não precisamos mais convencer as pessoas de que o financiamento climático gera retorno financeiro”, diz Anna Lúcia Horta, diretora-executiva da Capital for Climate no Brasil.

Por outro lado, nem todos os empresários têm plena consciência do problema. “Temos desafios muito específicos para viabilizar a transição em cada setor da economia, e os tomadores de decisão ainda estão muito distantes de entender e de pensar nos diferentes cenários”, afirma Cançado.

A inquietação motivou a criação da plataforma Transitions, que pretende aumentar o conhecimento de investidores sobre a transição climática e apoiar empresas e negócios familiares a desenharem estratégias de descarbonização. A iniciativa deve ser lançada durante o evento.

“Estamos em uma realidade cada vez mais incerta e imprevisível. Não temos controle sobre nada, e precisamos estar preparados para lidar com diferentes cenários e influenciar as rotas que a gente acredita que são melhores para o nosso país, para o mundo e para os negócios”, diz a fundadora da Converge Capital.

A Brazil Climate Investment Week também terá uma agenda voltada aos resultados da COP30, a conferência climática das Nações Unidas sediada em Belém em 2025. A COP31, a edição deste ano, será realizada na Turquia, em um contexto internacional que já parece muito diferente.

“Todo o cenário geopolítico só tem intensificado os investimentos nas soluções que a gente vai precisar. Talvez não pelo motivo da descarbonização, mas o resultado é que os investimentos estão acontecendo”, afirma Cançado.

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