Mil toneladas de batatas estavam empilhadas a 4,5 metros de altura em um armazém na fazenda de Kris D’haeyere há meses. Mesmo oferecendo vendê-las por apenas alguns euros a tonelada, ninguém queria comprá-las.
Então D’haeyere fez o impensável: neste mês, ele despejou a safra de volta em seus campos no leste da Bélgica, a forma mais barata de se livrar do equivalente a 200 milhões de batatas fritas.
Outros agricultores estão fazendo o mesmo, enquanto a Europa enfrenta um excedente de 5 milhões de toneladas métricas do tipo de batata usado para fritas.
Durante meses, o preço de uma tonelada métrica de batatas no mercado à vista na Bélgica, a maior exportadora mundial de batatas fritas congeladas, permaneceu estagnado em zero. Há três anos, estava em quase 600 euros (US$ 690).
O grande excesso de batatas de 2026 é resultado de vários fatores, alguns meteorológicos e outros geopolíticos.
O bom tempo produziu a maior colheita europeia de batatas em oito anos, justamente quando os agricultores lutavam para vender suas safras porque as tarifas do governo Trump atingiram suas exportações e novos concorrentes da Ásia conquistaram fatias de mercado. Mais recentemente, a guerra no Irã elevou os preços de energia e fertilizantes e fez os consumidores cortarem gastos, reduzindo margens de lucro que já eram finas como uma batata palha.
“Claro que é ruim”, disse D’haeyere, 58, “mas é a vida.” Suas batatas não vendidas começaram a brotar, tornando impossível repassá-las. Isso lhe causou um prejuízo de 160 mil euros em solo, mudas, fertilizantes, mão de obra e outros custos, e o forçou a recorrer às suas reservas financeiras, disse.
Folha Mercado
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D’haeyere plantou 7 hectares de batatas para o próximo ano, uma fração dos 69 hectares que costuma plantar em sua fazenda de 150 hectares em Hermalle-sous-Huy, na Bélgica.
Na Alemanha, outro grande produtor de batatas, um agricultor com 4.000 toneladas de batatas organizou uma série de distribuições gratuitas em Berlim, que os moradores locais chamam de “Kartoffel-Flut”, ou inundação de batatas.
Mas em nenhum lugar o desequilíbrio entre oferta e demanda de batatas foi sentido de forma mais aguda do que na Bélgica, a maior exportadora mundial de batatas fritas congeladas.
As frites são um símbolo nacional, e as friteries —como os belgas francófonos chamam as barracas que vendem cones de papelão recheados de batatas fritas— são onipresentes nas praças públicas de todo o país. Os belgas cobrem suas frites com uma variedade de molhos elaborados, incluindo andalouse, uma mistura de maionese com extrato de tomate e pimentões, e dallas, que leva cebola frita, tomate e ervas.
A Bélgica exportou US$ 3,3 bilhões em batatas cozidas e congeladas em 2025, quase o triplo do valor de uma década antes, segundo a agência de estatísticas da União Europeia.
Manter esse ritmo de crescimento será difícil.
A guerra no Irã é a mais recente fonte de tensão na cadeia de suprimentos de batatas fritas congeladas, disse Christophe Vermeulen, CEO da Belgapom, associação belga de processamento de batatas. Os custos mais altos de energia tornam a refrigeração e o transporte mais caros. Os custos disparados de fertilizantes também encarecem a agricultura, com navios transportando fertilizantes impossibilitados de sair do Golfo Pérsico devido a um bloqueio no estreito de Hormuz.
O bloqueio também dificultou a exportação de batatas fritas para países como Qatar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, todos grandes consumidores de batata frita. Os países do Golfo Pérsico provavelmente precisarão de menos batatas fritas de qualquer forma, com menos turistas hospedados em resorts e comendo em restaurantes, disse Vermeulen.
Mais perto de casa, a inflação crescente forçou muitos europeus a pensar duas vezes antes de ir a restaurantes, onde a maioria das batatas fritas é consumida, disse Niels van der Boom, analista da DCA Market Intelligence, especializada em mercados de commodities.
Esses desafios surgem enquanto as tarifas americanas sobre importações tornaram as batatas fritas europeias mais caras nos Estados Unidos, seu segundo maior mercado depois do Reino Unido. As exportações de batatas fritas congeladas da União Europeia para os Estados Unidos caíram 8% nos 12 meses encerrados em 28 de fevereiro, segundo a World Potato Markets, uma revista especializada. As vendas para a Arábia Saudita, o terceiro maior mercado para batatas fritas europeias, caíram 11% no mesmo período, e provavelmente diminuíram ainda mais desde o início da guerra no Irã.
As importações de batatas fritas europeias no Oriente Médio como um todo estão caminhando para uma queda percentual de dois dígitos desde o início da guerra, estimou Cedric Porter, editor da World Potato Markets.
“Isso nos prejudica”, disse Vermeulen, “especialmente em um setor que tem margens pequenas.”
As margens são modestas em parte porque os agricultores na Europa, em comparação com produtores de outras regiões, seguem regulamentações muito mais rígidas, disse Jean-Pierre Van Puymbrouck, agricultor em Walhain, na Bélgica. Produtos químicos agrícolas proibidos na Europa há mais de uma década ainda são autorizados em alguns outros países, disse.
“Isso claramente complica uma concorrência justa”, disse Van Puymbrouck, 52, que também é vice-presidente da associação comercial Belpotato. “Quando exportamos para outro país que não tem as mesmas restrições que nós, não estamos no mesmo nível.” Embora tenha dito que estava protegido da recente queda nos preços das batatas porque garantiu preços em contratos plurianuais antecipadamente, o excesso pode acabar significando preços mais baixos no futuro para ele também.
A demanda global por batatas fritas congeladas ainda está crescendo, mas a uma taxa recente de 2,5% ao ano, em comparação com um crescimento de 5% há cinco anos, disse Porter.
Os produtores europeus de batatas também estão enfrentando concorrência da China, Índia e Egito, que recentemente começaram a vender batatas fritas congeladas a preços muito mais baratos. O volume de batatas fritas congeladas exportadas da China e da Índia é inferior a 10% do que a Europa exporta, mas dobrou no ano passado em relação ao ano anterior.
Mas as batatas desses exportadores emergentes podem competir em sabor? Porter experimentou batatas fritas da Europa, China e Índia no ano passado e disse que não houve um vencedor claro. “Se você tem um restaurante onde suas margens são apertadas e quer batatas fritas”, disse ele, “você vai procurar as de melhor custo-benefício.”
Van Puymbrouck assumiu a fazenda de seus pais e um dia planeja passá-la para sua filha de 20 anos. “Ela é quem vai continuar”, disse ele, “então tem que estar bem.”
D’haeyere, no entanto, não compartilhava de seu otimismo. “Acho que os bons anos acabaram”, disse.









